Anos Incríveis: A História da NASL Ep. 1

A partir de agora, textos que foram a base para os episódios dos nossos Podcasts ficarão disponíveis aqui neste Blog.

O primeiro da série é o texto do Primeiro Episódio sobre a NASL, a NORTH AMERICAN SOCCER LEAGUE.

Espero que gostem.

O tempo e o novo momento que vive o futebol nos Estados Unidos, com jogadores brilhando em gramados europeus e uma Liga relativamente consistente que aumenta seu nível técnico a cada temporada aos poucos vai apagando o que representou a NASL e todo o legado que ela nos deixou.

Porém, limitar a reputação da Liga a um torneio que apenas reunia atletas em fim de carreira para exibições à um publico que pouco sabia sobre o esporte é algo muito vago e que desvaloriza todo o esforço dos envolvidos para fazer com que o Esporte mais praticado no mundo fosse adorado pelo povo que mais consome esportes em todo o planeta.

Nesta série de três episódios, contaremos todos os detalhes desta arrojada ação que juntou apaixonados pelo futebol, multimilionários, grandes empresas e claro, muitos charlatões e aventureiros – que há mais de 50 anos atrás causaram um impacto no jogo e na forma como ele é visto até hoje.

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Começaremos com as origens da liga – tema deste primeiro episódio.

No segundo o foco será no auge da Liga – cheia de estrelas como o Rei Pelé

E no terceiro falaremos sobre a sua queda e o seu legado.

Dito isso, vamos para ao que interessa, vamos contar com detalhes como esta aventura começou:

AS ORIGENS

Começamos a nossa história com algo surpreendente:

Os americanos foram responsáveis por uma das Ligas Profissionais mais antigas do Mundo.

Ela foi fundada em 1894 pelos donos dos times da Major League Baseball e serviam como uma forma de gerar receita durante os meses de inverno, quando o baseball não é praticado.

A Liga durou poucos anos e logo foi substituída por uma liga semiprofissional que durou até 1921, quando se fundou com uma forte liga do estado de New England e novamente voltou ao profissionalismo.

Esta liga atraiu jogadores de diversos lugares e teve um período de alta popularidade, ficando atrás apenas do Baseball e à frente do Futebol Americano na época.

Porém, mesmo depois do sucesso na Copa do Mundo de 1930 aonde chegou até a semifinal a liga entrou em colapso e com isso o futebol por alguns anos desapareceu dos estádios e automaticamente despareceu também das mentes e Corações dos americanos.

Tanto que nem a surpreendente vitória sobre a Inglaterra na Copa de 1950 no Estádio Independência causou alguma comoção em território ianque.

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Apenas no início dos anos 60 o esporte voltou a ganhar força, principalmente nas faculdades e o número de praticantes aumentou consideravelmente.

Mas o impulso para que o futebol conquistasse os americanos aconteceu em 1966.

Mais exatamente, no verão de 1966, quando do outro lado do oceano os grandes nomes do esporte se encontravam…

Cartaz do Filme Oficial da Copa do Mundo de 1966

A Copa disputada na Inglaterra foi um sucesso de audiência nos Estados Unidos.

Tanto os jogos como o Documentário Oficial produzido pela FIFA foram assistidos por milhões de norte americanos, o que gerou surpresa para muitos, mas que também acendeu cifrões nos olhares de muita gente, principalmente aqueles que já acompanhavam de perto o sucesso das excursões feitas por grandes times da Europa e da América do Sul aos Estados Unidos.

Para vocês terem uma ideia do sucesso, ou como dizem os americanos, do BUZZ que o futebol atingia naquele momento, duas ligas foram fundadas no segundo semestre do ano de 1966.

  • Uma delas era a USA – ou UNITED SOCCER ASSOCIATION – nome de belo apelo patriótico, mas com um conceito bem duvidoso de como difundir o esporte no país.
  • E a outra era a NPSL – ou NATIONAL PROFESSIONAL SOCCER LEAGUE – que aos olhos de todos era a que poderia ser chamada de UMA LIGA DE VERDADE, pois tinha como proposta que os próprios clubes contratassem os seus jogadores e formassem os seus elencos.

A NPSL, bem mais organizada, foi aos poucos recrutando os seus participantes e acendeu a luz de atenção para a liga adversária, que ao ver que não conseguiria recrutar participantes com atletas o suficiente nos elencos decidiu – na maior cara de pau – simplesmente convidar times europeus e sul-americanos para jogarem representado os doze clubes de diversas cidades

Por mais estanho que tenha sido a ideia eles conseguiram levar grandes nomes para a sua ˜Liga Fantasia” – citarei agora alguns exemplos:

  • Stoke City de Gordon Banks jogou como Cleveland Stokers
  • O Cagliari de Roberto Bonisegna jogou como Chicago Mustangs
  • E pasmem – o Bangu de Ari Clemente e Paulo Borges jogou como Houston Texas.

Surpreendentemente a liga que promoveu este torneio fictício – a USA – conseguiu nos bastidores, muito graças a influência dos seus organizadores no mundo esportivo, convencer a Federação Americana de Futebol na época a conseguir a sanção da FIFA e com isso a NPSL se tornou, aos olhos da organização mais poderosa do futebol e de todos os seus filiados uma liga fora da lei.

Mesmo sem o reconhecimento da principal entidade do Futebol, os criadores da NPSL

  • Dick Cecil – dirigente do time Atlanta Braves
  • E Bill Cox – ex-proprietário do time de baseball Philadelphia Phillies, mas que foi banido do esporte por apostar no próprio time…

Conseguiram um contrato de transmissão coma emissora CBS, que confiou no fato de que se tratava de uma Liga propriamente dita e não de uma mascarada e cheia de clubes estrangeiros.



Com a Liga criada e o acordo de transmissão, o próximo passo foi tirar a liga do papel – recrutando treinadores, atletas universitários e principalmente de ligas mundo afora – como Inglaterra, Espanha e Iugoslávia, de países vizinhos como a Costa Rica e até de países africanos.

A Liga teve seu início no dia 16 de abril de 1967 com cinco jogos envolvendo nove equipes americanas e uma canadense e teve um total de quase 46 mil espectadores nos estádios, com destaque para o jogo entre o Philadelphia Spartans e o Toronto Falcons, que contou com mais de 16 mil espectadores para ver a vitória do time da Casa por 2 x 0.

Por se tratar de um público acostumado a altos números no placar, os organizadores da Liga criaram uma nova forma de pontuação que deixasse o jogo mais ofensivo e automaticamente proporcionasse mais emoção ao torcedor americano.

  • Na NPSL a vitória valia seis pontos, o empate valia três e os times ganhavam 1 ponto adicional a cada três gols marcados na partida.

Outra particularidade e que é tradição nos esportes americanos são os intervalos comerciais durante as partidas.

Os organizadores da competição bem que tentaram dar um jeitinho de se adaptar a isso, mas em muitas vezes não deu muito certo:

  • Prova disso foi um jogo entre o Pittsburgh Phantons e o Toronto Falcons que foi obrigado a parar para intervalos comerciais em onze das vinte e uma faltas ocorridas na partida para atender interesses publicitários.
  • Para vocês terem uma ideia, o arbitro da partida, o senhor Peter Rhodes chegou a admitir que pediu para os jogadores fingirem contusão e com isso conseguir parar o jogo e facilitar a entrada dos comerciais.

Apesar de toda essa adaptação, a temporada regular – como são chamadas as primeiras fases das competições esportiva nos Estados Unidos – foi bem agitada e a alta pontuação dos jogos fez com que a disputa pelo título de cada conferência ficasse bem emocionante.

Na conferência leste o vencedor foi o Baltimore Bays de Juan Santisteban – que no início da carreira fez parte do elenco multi campeão do Real Madrid no fim dos anos 60.

Eles encararam na final o Oakland Clippers do goleiro Mirko Stojanovic que jogou a copa do Mundo de 62 pela extinta Iugoslávia, Ilija Mitic – atacante sérvio e que foi o artilheiro da competição e do brasileiro Mário Baesso – que surgiu no Amêrica de São José do Rio Preto.

No dia 03 de Setmbro de 67 – aconteceu o primeiro jogo, disputado no Memorial Stadium em Baltimore e o time da casa venceu por 1 a 0 com um gol marcado pelo inglês Dennis Violet – um dos Busby Babes do United dos anos 50 e que sobreviveu ao trágico acidente aéreo que matou grande parte do time.

Uma semana depois no Oakland-Alameda Stadium brilhou a estrela de um dos tantos iugoslavos no time da casa, e com um hat-trick de Dragan Djukic na vitória por 4 x 1 sobre o Baltimore Bays os Clippers se tornaram os primeiros campeões da NPSL.

Os primeiros e únicos…

NASCE A NASL

A empolgação com os públicos das primeiras rodadas, tanto da NPSL quanto da USA, foi apenas fogo de palha.

Na maioria dos jogos o publico médio foi de 3 a 6 mil pessoas – com exceção de Chicago, que graças aos imigrantes Poloneses e Alemães teve bons públicos no Soldier Field em jogos do Chicago Mustangs, ou melhor, o Cagliari da Itália fantasiado de Mustangs que jogava a USA e também em jogos do Chicago Spurs que jogava a NPSL.

Por outro lado, era possível ver o aumento da prática do jogo nas grades Cidades pelo país a fora. O que manteve as esperanças dos organizadores das duas ligas acesas.

Vale deixar claro aqui que estes mesmos organizadores não rivalizavam entre si e mesmo de maneira tímida, mantinham a esperança de uma possível união das duas ligas.

O que era uma possibilidade, se torna provavelmente o único caminho a seguir um mês depois do final da NPSL, quando a federação inglesa de futebol decide banir os jogadores envolvidos na liga não reconhecida pela FIFA, os excluindo das negociações para jogarem nos clubes ingleses e até de possíveis convocações.

Com isso, os organizadores tinham em uma mão uma liga cheia de jogadores, mas que não era reconhecida pela FIFA e pela FA e na outra mão uma liga que alugava times de outros países para jogarem uma competição que durava apenas 45 dias.

Portanto, não restava outra opção a não ser unir as forças para seguirem com a ideia de fazer do futebol um esporte popular no país. E foi o que eles fizeram.

Em dezembro de 1967 eles anunciaram a criação da NASL – a North American Soccer League – com contaria com 17 times que disputariam a primeira edição da nova liga no ano seguinte.

Algumas cidades com dois times ficaram com apenas um com a outra franquia se transferindo para outra cidade – e com isso um dos dois times de Chicago foi para Kansas e um dos dois times de Los Angeles foi para San Diego.

  • E aqui vale reforçar que a mudança de cidade entre as franquias do esporte americano, algo que pode nos assustar, sempre fez parte da cultura esportiva do País.

Já dois times da USA – New York Skyliners e Toronto City – que na verdade durante a liga eram o Cerro do Uruguai e o Hibernian da Escócia respectivamente, encerraram suas atividades e os times da NPSL que ficavam em Nova York e Toronto se tornaram os representantes das cidades na nova liga.

Os 17 times foram separados em 4 grupos, três com quaro equipes e apenas um – o grupo da Divisão do Atlântico – com cinco equipes.

Os primeiros colocados de cada grupo fariam a semifinal.



O critério de pontuação se manteve o mesmo usado pela NSPL – Seis pontos para a vitória, três para o empate e um ponto extra a cada três gols marcados.

Ao ver a média de gols de 3.41 por partida, podemos dizer que a estratégia de incentivar os times a jogarem de forma mais ofensiva funcionou – mas não influenciou muito na empolgação do público.

Como já era tradição, times do mundo todo viajaram para os EUA para amistosos que rendiam um belo dinheiro – principalmente para os clubes sul-americanos.

Naquele ano o Santos foi um deles – assim como o Manchester City, o Borussia Dortmund e o Real Madrid e os públicos foram altíssimos, o que automaticamente gerou uma ótima expectativa dos organizadores.

Porém o que se viu durante o torneio – que teve início no fim de março – foi uma média de público de 4.700 pagantes com esporádicos públicos que passavam dos 10 mil.

Estes maiores públicos aconteceram em cidades como Chicago, Atlanta, Cleveland e San Diego – muitos deles impulsionados pelas boas campanhas dos times.

Outros bons públicos também foram vistos nas semifinais – quando o Atlanta Chiefs encarou o Cleveland Stokers e o San Diego Toros encarou o Kansas City Spurs.

Na primeira semifinal o Atlanta Chiefs do sul-africano Kaizer Motaung – que depois de jogar no Chiefs de Atlanta voltou para sua terra natal e fundou o Kaizer Chiefs – superou o Cleveland Stokers de Ruben Navarro – bi campeão da Libertadores pelo Independiente em 64 e 65.

Na outra o San Diego Toros de Vavá – sim o Peito de Aço, Bicampeão do Mundo pela seleção – superou o Kansas City Spurs.

As finais aconteceram no fim do mês de setembro e depois de um 0 x 0 em San Diego o Atlanta Chiefs deu um show jogando em sua casa. –  O Atlanta Stadium – e com gols de Peter McParland, Delroy Scott e Kaizer Moutang – fez 3 x 0 e ficou com a taça – se tornando o primeiro time de Atlanta a ser campeão nacional.

E por uma triste coincidência, um time de Atlanta se tornou campeão nacional no ano em que um dos principais filhos da cidade, Martin Luther King, foi assassinado.

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A empolgação da final e a festa dos 15 mil torcedores na partida final não escondiam nem de longe a decepção de publico nos estádios e de audiência na TV que foi a liga.

Os números foram tão decepcionantes que dez dos dezessete times abriram falência, um deles mudou de cidade – o Oakland Clippers foi para a Califórnia e o outro – o Chicago Mustang – decidiu jogar uma liga semiprofissional – restando apenas cinco times – ou cinco franquias.

Até a CBS – que tinha em seu contrato de transmissão clausulas que a defendia em caso de fracasso da liga – simplesmente desistiu de transmitir a competição.



Dick Walsh – ex-diretor da extinta USA – voltou com a ideia esdruxula de alugar times para representarem os times da liga e ela teve seu início exatamente desta forma, com os cinco times sobreviventes jogando a INTERNATIONAL CUP – um torneio disputado em turno único, mas que ao invés dos times jogarem com os seus respectivos elencos eles seriam representados por times convidados. E foram eles:

  • O Atlanta Chiefs foi representado pelo Aston Villa
  • O Baltimore Bays foi representado pelo West Ham dos Campeões Mundiais Geoff Hurst, Martin Peters e Bobby Moore.
  • O St Louis Stars foi representado pelo Killmarnock da Irlanda
  • O Kansas City Spurs foi representado pelo Wolverhampton
  • E o Dundee United voltou a Dallas dois anos depois para representar o Dallas Tornado.

Depois desta loucura que teve o Kansas City Spurs – ou melhors o Wolverhampton campeão – os times europeus que representaram os cinco sobreviventes da NASL fariam amistosos nas respectivas cidades enfrentando os times que eles representaram e que serviriam de uma pré-temporada.

Passada esta papagaiada toda a NASL finalmente começaria a sua temporada regular – com os cinco times se enfrentando em turno e returno por duas vezes e o time com mais pontos, seguindo ainda a pontuação criada anos antes, seria o campeão.

O Kansas City dos Uruguaios Leonel Conde e Pepe Fernandez – MVP, ou melhor jogador da competição – lutou ponto a ponto com o Atlanta Chiefs, campeão da temporada anterior e conquistou o torneio por apenas um gol de diferença.



Mais uma vez a liga teve números decepcionantes.

Logo após o fim do campeonato o Baltimore Bays – que teve uma decepcionante média de 1600 pagantes – também abriu falência.

De positivo para a liga, apenas duas coisas.

  • A primeira era o fato de que o número de atletas americanos em relação aos altos números de atletas estrangeiros nos times começava a ganhar um certo equilíbrio, ajudando a diminuir a imagem de LIGA DOS IMIGRANTES que ela adquiriu no primeiro ano ao não ter sequer um jogador nascido no país em campo em diversos jogos.
  • A segunda era o fato de que o galês Phil Woosnam – jogador com passagem pelo Mancheter United, mas que fez sucesso mesmo no Aston Villa – e que foi para os Estados Unidos encerrar a carreira de jogador e logo se tornou também treinador do Atlanta Chiefs e até da seleção Norte Americana em 1968 e um ano depois aceitou a pesada responsabilidade de ser o Comissario da NASL e viajar o país em busca de novos investidores para criar novas franquias e com isso tentar tirar a liga do buraco.

Um trabalho árduo, mas que Woosnam parecia ser o nome destinado a fazê-lo.

A APOSTA FINAL

Phil Woosnam

Ele já tinha como compromisso lutar para pelo menos igualar o número de cinco integrantes no ano seguinte, pois o Baltimore Bays, no meio da temporada de 69 já avisara que fecharia as portas.

Woosnam viajou pelos Estados Unidos com todo seu poder de negociação e conseguiu com que Rochester Lancers e Washington Darts – times da Liga Semiprofissional pagassem a taxa de 10 mil dólares para participarem da edição de 1970 e com isso subiu de cinco para seis participantes.

Desta vez a INTERNATIONAL CUP não foi uma competição com times de aluguel e sim um encontro entre times europeus contra times da NASL – o que faz bem mais sentido para uma liga que buscava estabilidade e reconhecimento do seu público.


A Temporada Regular iniciou com dois grupos de três times que jogavam entre si e entre os times do outro grupo em quatro turnos e surpreendentemente os dois estreantes venceram as Divisões:

  • O Rochester Lancers dos Brasileiros Renato Costa e Carlos Metidieri – que foi o artilheiro e MVP da competição – venceu a divisão Norte
  • Já o Washington Darts, recheado de jogadores de Trinidad e Tobago venceu a Divisáo Sul.

No início de setembro os dois times fizeram jogos eletrizantes, com o Rochester Lancers vencendo o primeiro por 3 x 0 com dois gols de Renato Costa.

Na partida de volta o Lancers saiu na frente, mas o time de Washington que jogava em casa reagiu e virou para 3 x 1 antes dos 25 minutos do segundo tempo.

Mas o placar não foi o bastante e o time do Estado de Nova York ficou com a taça.

Naquele mesmo ano de 1970, durante o mês de junho, Woosnam viajou ao México para acompanhar a Copa do Mundo e se encontrou com Neushi Ertegun – na época Vice-Presidente da gravadora Atlantic Records – uma das empresas do Grupo Warner.

Woosnam – que por um período trabalhava em uma pequena sala dentro do Estádio onde o Atlanta Chiefs jogava, decidiu se mudar para Nova York e transferiu a sede da NASL para lá – onde por muitas vezes se encontrava com Neushi Ertegun

Etergun era fanático por futebol e falar sobre o jogo era algo comum nos encontros dos dois, e se tornou o elo principal para que eles se tornassem grandes amigos e se encontrassem constantemente.

E foi durante um destes encontros que o interesse o grupo Warner em ter um time de futebol surgiu pela primeira vez.

Woosnam ficou eufórico.

Diferente dos primeiros anos em que muitos aventureiros entraram no negócio com pouco planejamento, ter um time liderado por uma gigante como a Warner não só aumentaria o número de times, como também daria a liga uma imagem de estabilidade e credibilidade.

Steve Ross – presidente da Warner – apoiou a ideia e deu o controle da franquia para o inglês Clive Toye – jornalista de formação e que nos anos anteriores havia sido diretor do Baltimore Bays.

Toye tomou conta de todo o proneto, cuidando de cada detalhe. A prova disso é que ele foi até o responsável pelo nome da equipe – e aqui vai uma bela Pitadinha:

  • Inspirado pelo New York Mets, que abreviou a palavra Metropolitans – ele abreviou a palavra Cosmopolitan e no dia 10 de dezembro de 1970 foi feito o anúncio de um novo time na principal cidade do país, com direito a música oficial feita por dois integrantes da Banda Average White Band – Alan Gorrie e Stevie Ferrone – que gravaram a música sob o Pseudônimo de “The Cosmic Highlanders”

Além disso, para deixar a história ainda mais interessante, anos depois descobriram que a gravação contou com a participação de nada mais nada menos do que Whitney Houston como uma das Backing Vocals.

Apresentado o New York Cosmos – aliás, apresentado com toda a pompa que o time mereceria nos anos seguintes, temos que mais uma vez valorizar o incrível trabalho que o Comissário da NASL Phil Woosnam estava fazendo, pois mesmo perdendo mais uma franquia no final de 1970 – a de Kansas City – ele adicionou, além do Cosmos, dois times canadenses na competição:

O Toronto Metros e o Les Olympiques de Montreal – que antes mesmo de iniciar a competição em 1971 já mudou o nome para Montreal Olympics. E com isso a competição saltava de seis para oito equipes.

Com o acréscimo de times a Liga também mudou o regulamento, classificando dois times por divisão e fazendo uma semifinal e final em melhor de três jogos – algo que você ouvinte que lembra dos playoffs dos campeonatos Brasileiros de 98 e 99 recordará facilmente.

  • Na Divisão Norte os times do Estado de Nova York superaram os canadenses e Cosmos e Lancers se classificaram.
  • Na Divisão Sul os “já tradicionais” Atlanta Chiefs e Dallas Tornado passaram de fase.

Em uma das semifinais o Atlanta Chiefs superou o estreante New York Cosmos ao vencer as duas primeiras partidas com grandes exibições de Kaizer Motaung, Freddie Mwilla e do Brasileiro Uriel da Veiga e nem foi necessário o terceiro jogo



Na outra semifinal algo histórico, para não dizer bizarro, aconteceu:

Não havia empate nos jogos das semifinais e o regulamento previa tempos de 15 minutos até que um time fizesse o gol e ficasse com a vitória – algo como um Gol de Ouro Obrigatório.

  • Na primeira partida o tempo normal ficou em 1 x 1 e foram necessários SEIS TEMPOS EXTRAS DE QUINZE MINUTOS até que o brasileiro Carlos Metidieri fizesse o gol da vitória no minuto 176, ou seja, há quatro minutos dos times completarem a soma de duas partidas inteiras.
  • Na segunda partida o time de Dallas fez 3 x 1 no tempo normal
  • E três dias depois um novo empate em 1 x 1 no tempo normal e apenas no final do quarto tempo extra o inglês Bobby Moffat marcou o gol que levou o Dallas Tornado para a final.

Quatro dias depois dessa loucura o Dallas entrou em campo no Atlanta Stadium para encarar o Atlanta Chiefs, campeão de 1968 e mais uma vez encarou três tempos de prorrogação na derrota por 2 x 1.

  • Este primeiro jogo e o possível cansaço pela sequência de jogos do time de Dallas indicava que o Atlanta conquistaria novamente a taça, porém no segundo jogo foi a vez de outro brasileiro brilhar.
  • Luiz Juracy – brasileiro que fez carreira no futebol Mexicano – foi autor de dois gols na vitória por 4 x 1 do Dallas no Franklin Stadium – o que forçou um terceiro jogo.
  • E na partida disputada novamente em Atlanta o time de Dallas mais uma vez mostrou sua força e com gols de Mike Renshaw e Bobby Moffat fez 2 x 0 e ficou com o título.



Mesmo com o aumento de times a NASL ainda apresentava problemas de público e de faturamento.

A temporada de 1972 foi a primeira sem a saída de algum participante – a única mudança foi a da franquia de Washington – o Washington Darts – que foi para Miami, e passou a se chamar Miami Gatos.

Ao contrário dos primeiros anos, não houve nenhuma loucura para promover a competição como os convites para times estrangeiros, excesso de jogos ou coisa parecida.

A temporada regular teve apenas 14 jogos, decisão tomada por Phil Woosnam e aprovada por todos os donos de franquias para estabilizar as economias da liga.



Se não houve nada esdrúxulo para promover a Liga, houve duas mudanças que influenciaram diretamente a temporada.

  • A primeira foi a implementação do Draft – tão tradicional nos esportes americanos, o que promoveu algo inusitado e que merece o destaque aqui.
  • Alain Maca foi o primeiro jogador draftado – escolhido pelo Miami Gatos. Ele é filho de Joe Maca, um dos jogadores do US TEAM que venceu a Inglaterra no Estádio Independência durante a Copa de 1950 disputada no Brasil.

A outra mudança surpreendeu a todos e que foi adicionada durante a competição:

Foi a aplicação de uma linha colocada 35 jardas à frente da linha de fundo – ou seja 32 metros, um pouco depois da meia lua – que determinaria que apenas entre a linha aplicada e a linha de fundo fosse permitido aos bandeirinhas assinalarem impedimento.

Essa mudança fez com que os jogos ficassem mais ofensivos, mas também causou estranheza do mundo todo que ridicularizou a ideia. Porém, pensando no futuro do jogo a FIFA chegou a elogiar a tentativa e disse que analisaria com carinho a ideia para aplicar em suas competições num futuro próximo. E de fato ela fez algo semelhante no Mundial Sub-17 de 1991.

Com a bola rolando as coisas não mudaram muito em relação ao ano passado.

Os melhores da Divisão Norte foram os times de Nova York, mesmo com o Montreal Olympics investindo alto ao trazer um jovem escocês chamado Graeame Souness – que depois se tornaria um dos grandes nomes da história do Liverpool.

Já na Divisão Sul o St. Louis Stars – time com o maior número de jogadores norte americanos – foi o melhor time e passou de fase junto com o retentor do Título – Dallas Tornado.

Nas Semifinais em jogo único New York Cosmos superou o Dallas Tornado e o St. Louis Stars superou o Rochester Lancers.

No final de agosto de 1972 os dois times se enfrentaram no Hofstra Stadium em Long Island para um publico de 6.100 pagantes.

  • O time de Nova York sai na frente com um gol do MVP do ano – Randy Horton, natural de Bermuda.
  • St. Louis empata com o jogador e também treinador do time, o polonês Kazimierz Frankiewicz no início do segundo tempo.
  • No final do jogo John Kerr do Cosmos sofre um pênalti e o atacante tcheco Josef Jelinek – que estava na seleção que encarou o Brasil na Final da Copa do Mundo de 1962 no Chile – cobrou e fez o gol que deu a primeira taça para a franquia mais badalada da NASL.
O NY Cosmos Campeão da NASL de 1972

Espero que tenham gostado de todos os detalhes da louca, mas também heroica saga de muitos aventureiros que fizeram de tudo para que o Futebol, ou melhor o Soccer, realmente tivesse uma Liga de Futebol Profissional no fim da década de 60 e início da década de 70.

Muitas escolhas arriscadas, muitas escolhas de gosto duvidoso, mas que com o passar dos anos foi ganhando corpo e principalmente com o compromisso e profissionalismo do visionário Phil Woosnam foi ganhando respeito e admiradores.

No próximo episódio voltaremos de onde paramos.

O ano de 1973 é o início de uma era Dourada da Liga, algo surpreendente e inovador demais para época e que deixou um legado que perdura até hoje no futebol.

As próximas semanas por aqui serão de muito estudo para trazer para vocês mais um espetacular episódio desta série, que assim como a NASL, será histórica.

Até Mais.