CONSERVADORES PELA PRÓPRIA NATUREZA

Sim, somos conservadores.

Com o tempo podemos até buscar mais conhecimento e com isso mudarmos o nosso ponto de vista sobre diversas coisas, mas no íntimo somos bem conservadores.

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Caso esteja decepcionado ou revoltado com o fato, tenho ao menos uma boa notícia para você: A culpa não é totalmente tua.

Volte algumas casas no “Jogo da Vida” e tente relembrar alguns comportamentos de pessoas mais velhas do que você e que você admirava na infância. Logo perceberá que diversas delas seriam questionadas, ou melhor, canceladas quase que de maneira instantânea nos dias de hoje.

Agora avance algumas casas e pare bem no momento de transição entre a adolescência e a vida adulta e me diga: Quantas vezes ouviu dos teus pais, parentes ou vizinhos próximos sugeriram que você deveria estudar para um concurso público?

Eu pelo menos ouvi muitas vezes. Cheguei a fazer alguns. Resultados péssimos.

Mesmo assim eu continuava ouvindo que aquilo era uma grande chance de ESTABILIDADE e SEGURANÇA e de que a tentativa de uma carreira profissional seria algo arriscado.

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E exatamente neste ponto que eu quero chegar. No medo, imposto de forma consciente ou inconsciente na nossa sociedade, de corrermos riscos.

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Aqui, mais uma vez, a culpa provavelmente nem são destes parentes mais próximos.
Mas talvez dos antepassados.

Pois desde 1500, quando invadiram essa terra que chamamos de Brasil, vem se explorando cada pedaço e dando como retorno apenas problemas sanitários e divisão social e econômica que, graças ao resultado do genocídio e da escravidão mais longa do planeta, faz com que nosso país tenha uma diferença sócio racial que se assemelhe ao Apartheid e fez com que o povo, desde sempre tivesse dois caminhos para seguir:

O mais seguro, seguir as regras impostas pelos exploradores. Trabalhar muito e com isso garantir o mínimo sustento dele e dos próximos.

A outra opção seria desobedecer às regras e correr riscos. Desafiar, confrontar, questionar e até fugir.

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A primeira opção, caso seguida à risca garante a tão sonhada ESTABILIDADE e SEGURANÇA. Portanto, depois de séculos de sofrimento, foi a escolha natural da grande maioria.

A segunda opção, bem mais complexa, exige coragem, criatividade e muito conhecimento. Muitos escolheram e as poucas vitórias que o povo pobre tem neste país, devem-se muito a eles.

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Porém, estes caminhos tão opostos em um país que vive em um círculo vicioso de exploração e negação de oportunidades para grande parte da sua população há mais de 5 séculos, só poderíamos ter como resultado uma sequência de gerações de um povo que simplesmente se acostumou com o fato de que tentar o novo é um risco, que aceitar as exigências do sistema é uma forma de sobrevivência, que seria mais fácil se adequar a falsas tradições e com isso o que temos hoje é um povo que criou uma rejeição sobre o novo. Sobre o desconhecido.

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Junte isso com um sistema que seja qual for sistema de governo, sempre se esforçou para que o seu povo não tivesse acesso ao conhecimento e pronto: Temos um país conservador e um povo inconscientemente acostumado a produzir e receber apenas o necessário para continuar vivo.

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Agora transfira isso para o Futebol. Para este momento de inércia com “Pitadas de Negacionismo” que estamos vivendo na cultura do jogo e veja se ele não se encaixa perfeitamente neste sistema tradicional, ultrapassado e que rejeita conhecimento.

Ou seja, neste sistema conservador.

E quando eu falo futebol eu não estou me referindo apenas ao campo e bola. Eu realmente falo de todo o sistema do esporte. De quem comanda, de quem treina, de quem joga, de quem transmite e de quem torce.

Veja como todo este conservadorismo do nosso futebol tem como base a rejeição pelo novo e a aceitação da mediocridade.

  • Não se arrisca um projeto administrativo diferente do tradicional sistema de clube social e, com exceção ao time energizado por uma bebida que dá asas, até o sistema de Clube Empresa daqui tem os vícios e os pensamentos de empresas ultrapassadas.
  • Treinadores então nem se fala. Estamos neste carrossel de nomes transitando entre os principais clubes do Brasil há décadas, aceitando uma entrega pobre de conceitos e de espetáculos. E, assim como passamos a escolher vacinas de acordo com sua procedência, usamos do mesmo conservadorismo xenofóbico para decidir qual treinador estrangeiro vamos gostar ou odiar.
  • O que joga é o total reflexo da falta de cultura e da alienação da parcela mais jovem da sociedade.
    Com o futebol ficando cada vez mais científico e cada vez menos lúdico, nossa “formação de atleta” mais parece criar “soldados politicamente alienados” prontos para serem sempre um “atleta nota seis” e partirem à caminho do exterior, para aí sim passarem por um período de refinamento cultural e evoluírem.
  • Já quem transmite não comunica, não informa e não educa. Transformou o jogo num festival de publicidade, seguido de comentários vagos e notas de um Fantasy Game.
    E faz pior ainda quando a bola não rola. Pois o medo de arriscar aliado a pobreza editorial e a busca por visualizações transformou debates futebolísticos em terríveis shows de stand-up. Onde o que vale mais é o comentário sensacionalista ou print da tela se tornarem “meme” do que realmente o conteúdo do debate.

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E claro, tudo isso cai na base da pirâmide, no torcedor.

Que não questiona o sistema administrativo corrupto do futebol pelo simples fato de ter se acostumado a viver em um sistema corrupto desde sempre.

Que abraçado a um saudosismo seletivo (obra do conservadorismo), acredita que tudo de novo não serve e que “no tempo dele que era bom”.

Que ao buscar onde se informar, é metralhado com sensacionalismo, gritaria, piadas e pouco conteúdo.

E que com isso, também passa a acreditar que qualquer tentativa de algo novo no seu clube do coração é um risco desnecessário e que para dar certo o seu time precisa mesmo é “voltar às raízes”, seja lá o que isso exatamente signifique.

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Infelizmente, ao olharmos para este círculo vicioso de manipulação e conservadorismo barato que vivemos, o futuro não nos parece dar sinais de mudanças no curto prazo.

No futebol e principalmente fora dele.

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Ao invés de quebrarmos as barreiras do conservadorismo, estamos subindo muros baseados em conexões sentimentais com o passado e apenas assistindo e admirando por cima destes muros a troca de conhecimentos e a busca por evolução que acontecem do outro lado.

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Para este que escreve, a única solução é buscar e, principalmente, compartilhar conhecimentos e pontos de vistas.
Trocar ideias e não simplesmente acreditar piamente apenas uma, rejeitando ou deixando de se informar sobre ideias diferentes.

O conhecimento, mesmo em um assunto menos importante como o futebol, se faz necessário.

Amamos tanto este esporte que a única forma de mantermos a chama desta paixão acesa é sendo um pouco mais racionais, para exigirmos uma melhoria na forma como ele é apresentado para todos nós.

Portanto, fica aqui a sugestão: Se ouviu um bom Podcast, leu um bom livro, viu um ótimo perfil no Twitter ou em qualquer outra rede social que trata a nossa paixão da forma como ela merece; compartilhe com amigos que desfrutam do mesmo sentimento pelo futebol que você tem.

Será muito bom para todos. Será muito bom para o futebol.

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