Quem ama cuida.

Entre o fim de domingo e o começo da segunda depois do clássico que pouco valia além da rivalidade entre Corinthians e São Paulo a principal Torcida Organizada do Tricolor postou no seu perfil do Twitter que vencer o Corinthians vale mais que um título e que entrar com grande parte de jogadores reservas na partida foi algo errado a se fazer.

48 horas depois o São Paulo encarou um briguento e cascudo Racing num jogo extremamente truncado e durante a partida perdeu por contusão dois dos seus principais jogadores nos últimos meses, num empate conquistado em um jogo repleto de adversidades.

Em um esporte que está cada vez mais físico e científico e que apenas a qualidade técnica não é o suficiente para se obter os resultados desejados há anos e até dentro de temporadas regulares (sem pandemia e sem calendários insanos) vimos diversos times “virarem o fio” no meio da temporada por desgaste físico e mental – vide histórias contadas no livro GUARDIOLA CONFIDENCIAL – A EVOLUÇÃO.

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Em outro Livro fantástico – o livro O NEGRO NO FUTEBOL BRASILEIRO – Mario Filho retrata muito bem a chegada de pretos no futebol, que na época era um esporte da elite.

Os pretos e pobres muitas vezes se tornavam sócios dos clubes ou trabalhadores de comércios ou fábricas dos donos dos times “de faixada” e passavam a maior parte do tempo treinando, para no final de semana ter a melhor performance possível e levar o time bancado pela elite ao sucesso nos campos e nas colunas sociais.

Se por um lado esta forma de mascarar o pagamento aos jogadores mais pobres foi um dos pilares do profissionalismo no futebol, por outro ela criou a cultura de se cobrar uma melhor performance destes jogadores, pois eles eram liberados do trabalho mais cedo para treinar, não estudavam e praticamente viviam para aquilo.

Viviam para jogar futebol. Frase familiar, não?

Seguindo o contexto elitista e racista (quase sinônimos, não?) do início do século passado em 1921 o presidente do Brasil Epitáfio Pessoa se reuniu com dirigentes da CBD e recomendou que apenas jogadores brancos fossem convocados para a seleção brasileira, para que assim evitasse “manchar a história do país no exterior”.

Para que você tenha uma ideia, segue abaixo um trecho de uma crônica do escritor preto Lima Barreto logo após a decisão:

“O football é eminentemente um fator de dissensão. Agora mesmo, ele acaba de dar provas disso com a organização de turmas de jogadores que vão à Argentina atirar bolas com os pés, de cá para lá, em disputa internacional.

E o mesmo fez O Correio da Manhã

“O Sacro Colégio de Football (a CBD) reuniu-se em sessão secreta, para decidir se podiam ser levados a Buenos Aires, campeões que tivessem, nas veias, algum bocado de sangue negro — homens de cor, enfim. (…) O conchavo não chegou a um acordo e consultou o papa, no caso, o eminente senhor presidente da República.’ Foi sua resolução de que gente tão ordinária e comprometedora não devia figurar nas exportáveis turmas de jogadores; lá fora, acrescentou, não se precisava saber que tínhamos no Brasil semelhante esterco humano.”

Jogos da Seleção Brasileira em 1921 - Jogos da Seleção Brasileira de Futebol
A “aura” Seleção Brasileira de 1921

Quase 30 anos depois, a Seleção Brasileira estava disputando a fase final da Copa do Mundo no Brasil e dias antes da final teve que sair de sua concentração e atender interesses de políticos, servindo de “manequins do sucesso” em jantares, reuniões e pequenos eventos.

Depois da final, sabemos bem o que aconteceu. Jogadores negros chegaram a ser escorraçados em seus retornos para a casa após a derrota para o Uruguai e a principal vítima do descaso, o goleiro Barbosa, viveu sob a sombra de uma pena máxima dada pela opinião pública, que como hoje, é bem influenciada pela imprensa.

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Anos depois, na era de ouro do nosso futebol, há vários registros de excursões dos grandes times brasileiros – principalmente Santos e Botafogo – em que jogadores sequer descansavam e muitos entravam em campo à base de muita infiltração e remédios para suportar a sequência de partidas para agradar o público e os bolsos dos dirigentes, pois sem as estrelas em campo o valor pago para os times era bem menor.

Garrincha foi prova viva deste descaso. Usado praticamente como um personagem de circo, nunca tratou da maneira ideal suas contusões e ao encerrar a carreira foi praticamente abandonado, recebendo uma pensão ridícula do clube que até hoje usa a sua imagem para ser reconhecido mundialmente.

A última vez que vi Mané Garrincha – Revista Ideias
Os exaustos joelhos de Mané

Nos anos seguintes, nomes como Afonsinho, Reinaldo, Sócrates, Casagrande e Wladimir – nomes que claramente lutaram contra a ditadura militar no Brasil – foram taxados de vagabundos, irresponsáveis e que deveriam “apenas jogar futebol” e se calarem. E como sabemos, eles nunca se calaram.

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Chegam os anos 90 e aí, como a nossa história é cíclica, o pagamento aos atletas volta a ser o problema. Com os jogadores ganhando altos salários a cobrança sobre a sua performance é redobrada.

Por quantas vezes não falamos ou ouvimos a frase “COM O QUE GANHA TEM QUE JOGAR TODOS OS DIAS E NEM RECLAMAR” nos últimos trinta anos ao falarmos sobre o calendário do futebol brasileiro?

Capa da Revista PLACAR em 1996

A cobrança e exigência aumenta também com a chegada das Arenas. O novo perfil de torcedor, que muitos insistem a chamar de consumidor, exige um espetáculo de acordo com o valor exorbitante que ele pagou.

Apoiar, vibrar e sofrer junto com o seu time não basta. Gritar para incentivar então nem pensar, pois ele quer assistir o jogo sentado.

Ele quer entretenimento, como se estivesse no Cinemark esperando o novo filme dos Vingadores começar. E caso ele não goste, vai reclamar e muito.

Fotos: Corinthians inaugura camarote com piscina em clássico contra o São  Paulo - 17/02/2019 - UOL Esporte
Camarote FIELZONE

O futebol brasileiro e todo o seu sistema precisa acordar para isso.
Ligar a TV e ver o seu time jogar todos os dias não é algo saudável. Assinar um acordo de fazer isso acontecer para atender interesses financeiros imediatos pode ter causado um estrago à médio prazo imprescindível.

Os jogadores também precisam se manifestar. São os artistas dessa turnê exaustiva e caso ela comece a não ser mais rentável serão os primeiros a pagarem por isso. Se não há revolta da “da mão de obra” ela não suporta e acaba dando espaço para outra mais qualificada ou que apenas aceite suportar o trabalho abusivo.

Isso não sou eu que estou dizendo e sim a história.

Quem cobre o futebol precisa trazer o lado mais humano da coisa.
Ninguém consegue render o melhor com tudo que estamos vivendo no mundo e isso tem que ser levado às Mesas Redondas, Podcasts e debates da TV – e sejamos justos, nomes como Vitor Birner, Paulo Calcade e André Kfouri vêm batendo nessa tecla há algum tempo.

Já o torcedor precisa se mais amor do que obsessão.

O tipo de cobrança feita recentemente por dirigentes, jornalistas e torcedores não é de quem ama o futebol e sim de quem quer jogar todo ódio todo do seu dia a dia em algo que tem pouquíssima culpa naquilo e isso se chama RELACIONAMENTO ABUSIVO.

Quem ama cuida.
Mas como vocês leram no texto, nunca o futebol brasileiro esteve nas mãos de quem realmente o ama.

E como em todo relacionamento, isso uma hora isso cansa.

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