Anos Incríveis: A História da NASL – Pt. 2

Antes de você iniciar a leitura, gostaria de dar um aviso:

A série especial é sobre a Liga. Claro que daremos um destaque especial ao Cosmos, mas por justiça a história da competição, a NASL não foi apenas o Cosmos, principalmente quando atingiu o seu auge e a nossa ideia aqui é contar grandes momentos de um todo e não apenas de um time.

Dito isso, boa leitura.

A CALMARIA ANTES DO TROVÃO

A ideia de iniciar em 1973 o capítulo em que falamos sobre o auge da liga não foi por acaso.

1973 é o ano em que a Liga inicia uma nova fase, com os jogos tendo uma notável melhora técnica, com alguns jogadores norte-americanos se destacando e com o surgimento das primeiras rivalidades.

Phil Woosnam, Comissário da Liga, continua na busca por novos times pelo país e a liga mais uma vez aumenta o número de clubes, vai de oito da temporada anterior, para 9 – com a chegada do Philadelphia Atoms.

De acordo com as pesquisas, o Atoms surge após o dono do Dallas Tornado Lamar Hunt sugerir a ideia de criar uma franquia em Philadelphia ao mega empresário da Construção Civíl Tom McCloskey durante um bate papo no Super Bowl do futebol americano daquele ano.

McCloskey gosta da ideia, mas sem conhecimento algum do esporte ele entrega o trabalho de formação do time ao treinador Al Miller, que montou um time com diversos jogadores do Southport, da terceira divisão inglesa e bons nomes draftados do futebol universitário.

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O Novo time da NASL ficou na conferência Leste, ao lado de NY Cosmos e do Miami, que se chamava Miami Gatos, mas mudou o nome para Miami Toros.

O restante dos times formavam as outras duas conferências – Oeste e Sul – e pelo regulamento os primeiros colocados de cada grupo e o melhor segundo colocado fariam as semifinais.

Para manter a tradição de sempre que possível adicionar uma bizarrice à Liga, o Tiburones de Vera Cruz do México fez uma excursão e enfrentou todos os times da NASL e sabe-se lá por que, os placares e pontuações dos jogos foram computados para os times da liga.

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Como na temporada anterior, alguns times aos poucos pareciam formar uma elite da Liga, e novamente NY Cosmos e Dallas Tornado passaram para a semifinal, assim como o Toronto Metros.

Porém o destaque mesmo foi o Philadelphia Atoms que no seu primeiro ano foi o melhor time da conferência.

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Os confrontos da semifnal colocaram o Dallas Tornado para encarar o NY Cosmos de um lado e Phladelphia Atoms como adversário do Toronto Metros no outro.

Na semi envolvendo o estreante da Liga o Philadelphia Atoms, que ficou por 13 jogos invicto na primeira fase e teve a melhor defesa da competição, atropelou o Toronto Metros para conquistar o eu lugar na final.

Na outra semifinal, a que envolveu os times ENTRE ASPAS “mais tradicionais”, o Dallas Tornado – time com a melhor campanha da competição – venceu o NY Cosmos por 1 x 0 com gol de Kyle Rote – e graças a melhor campanha ganhou, como estava escrito no regulamento, além do direito de decidir a liga em casa, o direito também de escolher qual a data em que a final aconteceria.

E aqui vem a uma bela Pitadinha…

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O diretor do Dallas, Joe Echelle, escolheu o dia 25 de agosto – o exato dia em que os principais jogadores do time de Philadelphia, Andy Prvan e Jim Fryatt deveriam estar na Inglaterra para se apresentarem ao Southport, pois a data ultrapassava o período do empréstimo dos jogadores.

Ao perder dois dos principais nomes do time, o treinador Al Miller fez diversas alterações, entre elas colocou o zagueiro Billy Straub para jogar como atacante.

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As mudanças deram certo. O Philadelphia mandou no jogo e quando o Dallas tentava oferecer algum perigo a linha de defesa do Atoms – chamada de NO GOAL PATROL – manteve a meta do goleiro Bob Rigby segura.

No segundo tempo o domínio do jogo se transformou em gols.

  • O primeiro foi um gol contra bizarro marcado pelo zagueiro do Dallas, John Best.
  • O segundo, quis o destino – foi do zagueiro improvisado de atacante Billy Straub. 

Final da NASL entre Philadelphia Atoms e Dallas Tornado

Enquanto a Liga de 1973 acontecia, Phil Woosnam – o Homem Da Liga – continuava sua jornada de conseguir novos times para fortalecer a competição e deixá-la cada vez mais com a cara de uma Liga Nacional, cobrindo todo o território do Norte-americano.

Woosnam fez a liga chegar de vez à Costa Oeste, adicionando equipes nas cidades de Vancouver, Seattle, Los Angeles e San José.

Além destas cidades no fim do ano ele cravou mais quatro franquias pelo país:

Denver, Boston, Washington e Baltimore. O acréscimo de oito equipes praticamente fez a crítica nem questionar a falência do Atlanta Apolos – o ex-Atlanta Chiefs, campeão da primeira North American Soccer League – e o Montreal Olympics,

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Para não perderem o costume e manterem a tradição de sempre alterarem ou trazerem alguma novidade para a competição, os organizadores decidiram que não haveria mais jogos empatados e que em caso de igualdade nos noventa minutos a partida seria decidida nos pênaltis.
Algo parecido com o que foi feito aqui no Brasil na Copa União de 1988.

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Esta temporada também foi a primeira em que clubes de outros países tiveram influência zero na pontuação ou no calendário do Liga, o que mais uma vez deixava claro que os organizadores estavam buscando uma identidade Norte-Americana para o esporte.

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Os times foram divididos em quatro conferências e os dois times com melhor pontuação seguiriam direto para as semifinais.
Já os times entre a terceira e a sexta melhores campanhas fariam uma repescagem para conquistarem as vagas restantes.

O Miami Toros de Warren “Laga” Archibald e o estreante Los Angeles Aztecs do uruguaio Luis Marotte e do argentino Roberto Aguirre fizeram as melhores campanhas e seguiram direto para a semifinal.

Nas repescagens três equipes eram estreantes:

  • O Boston Minuteman superou o Baltimore Cornets
  • E o San Jose Earthquakes não foi capaz de encarar de frente o único “vetarano” da fase final e foi derrotado pelo Dallas Tornado da lenda da Liga Ilija Mitic.

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Nas semifinais a força dos melhores times da primeira fase prevaleceu.

O Los Angeles Aztecs superou o Boston Minutemen, o Miami Toros superou o Dallas Tornado e no fim de agosto de 1974 disputaram a final, que deveria ser em Los Angeles, mas acabou acontecendo em Miami – e aqui temos que fazer uma pausa e explicar o porquê:

A CBS tinha os direitos de transmissão da final e por lei do Estado da Califórnia o jogo só poderia ser transmitido caso todos os ingressos fossem vendidos – algo parecido com o que vimos aqui no Brasil, especialmente no Estado de São Paulo nos anos 90.

Como o estádio de Los Angeles tem a capacidade de 90 mil pessoas e provavelmente não teria uma venda total de ingressos, a CBS convenceu a Liga e os clubes envolvidos que a melhor opção era levar a final para Miami.

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O jogo foi muito disputado e com um empate em 3 x 3 nos 90 minutos, e na decisão por pênaltis, o Los Angeles Aztecs foi melhor, ficou com a taça e se tornou a segunda equipe a vencer a liga logo em seu primeiro ano de disputa.

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Porém, se dentro de campo todos os olhares estavam para Miami e Los Angeles, fora dele os olhares da Liga se voltavam para o Brasil, pois o Cosmos – ou melhor, os investidores do Cosmos, mesmo com o time sendo a penúltima colocada da liga – estavam com planos de mudarem o patamar da equipe.

Quer dizer, da equipe não, da Liga.

THE KING IS HERE.

Pelé se despede do Santos no dia 02 de outubro de 1974, na vitória do Alvinegro da Vila Belmiro por 2 x 0 sobre a Ponte Preta, mas os dirigentes do New York Cosmos sonhavam com a presença do Rei do Futebol no time desde quando a franquia foi criada.

Porém apenas em 1972, quando o Santos fazia mais uma das tantas excursões pelo mundo em que passou pelo território americano que as conversas começaram a esquentar.

A desistência do Rei de disputar a Copa do Mundo de 1974, ao invés de desanimar os dirigentes do time nova iorquino, os deixaram mais empolgados, pois o plano de ter Pelé no time extrapolava as quatro linhas.

Pelé era visto como uma estrela mundial muito além das quatro linhas para o Grupo Warner, dono do Cosmos, e ter o jogador por mais tempo para se dedicar ao clube era o ideal para que a sua marca fosse explorada.

Os meses seguintes a sua despedida foram de muitas conversas, viagens e tentativas de formalizar o contrato.

E aqui vale reforçar que os americanos tinham a concorrência de Real Madrid e Juventus, que também sonhavam com a presença do Rei do Futebol em seus elencos.

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Os dirigentes do Cosmos queriam três anos de contrato e estavam dispostos a pagarem 3 Milhões de dólares.

Pelé queria apenas dois anos de contrato e não desistia de receber 5 milhões de dólares.

De acordo com ex-dirigentes da franquia, a ordem de Steve Ross, Presidente do Grupo Warner era de voltarem do Brasil com o contrato assinado com o Pelé custe o que custar – e foi isso que aconteceu.

Em uma negociação em que os valores nunca ficaram claros, ficou acordado que Pelé jogaria pela equipe de Nova Iorque por dois anos, mas todos os contratos de marketing, licenciamento e direitos de imagem ficaram vinculados ao Grupo Warner por mais de dez anos.

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Se o acordo entre a Equipe e o Atleta estava acertado. O acordo entre países nem tanto.

O Governo Ditatorial de Ernesto Geisel não via com bons olhos a ida de Pelé para os Estados Unidos e estava emperrando a viagem do Rei.

Dirigentes do Cosmos foram obrigados a solicitar uma ajuda do governo Norte-americano, mais especificamente do controverso Secretário Geral da Época – Henry Kissinger – que por mais que tenha um Prêmio Nobel da Paz em sua prateleira é conhecido por ser um dos idealizadores das Ditaduras Militares na América Latina e que com isso tinha total voz de poder sobre o Chanceler Brasileiro da época – Antônio Azeredo da Silveira.

Henry enviou um telefonou ao Chanceler e em poucas palavras disse que ABRE ASPAS:

“Seria bom para a relação entre os dois países, que Pelé fosse jogar nos Estados Unidos e que ajudaria também na imagem do Brasil no exterior.”

Antônio Azeredo entendeu o recado e no mesmo dia emitiu um Telegrama para Pelé com os seguintes dizeres:

“Tenho o prazer de comunicar-lhe que recebi mensagem do secretário de estado norte-americano, Henry Kissinger manifestando seu interesse pessoal em que possam chegar a bom termo as tentativas entre o Cosmos Clube e V.Sa. para a sua contratação pela equipe de Nova Iorque. Caso V.Sa. decida firmar aquele contrato, estou seguro de que sua permanência nos Estados Unidos contribuirá de forma muito significativa para uma aproximação brasileiro-norte-americana no campo esportivo. Cordiais saudações. 

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E foi assim, envolvendo o maior Grupo de Comunicação do Mundo, o Governo Americano, a Ditadura Militar Brasileira e muitos milhões de dólares a negociação aconteceu.

O Rei Do Futebol chegava ao Soccer. E como num milagre, todos os olhares do mundo do futebol se voltavam para os Estados Unidos.

CIA Declassified File: When Kissinger Met Pele And Called Him To The White  House
O Rei Pelé e Henry Kissinger

Pelé encontra uma Liga que não parava de crescer.

Phil Woosnam seguia na busca por novas franquias e conseguiu adicionar mais cinco para a nova temporada:

  • O Chicago Sting,
  • O Hartfold Bicentennials,
  • O Portland Timbers – este mesmo, presente na MLS
  • O Santo Antonio Thunder
  • E por último, mas longe de ser o menos importante – o Tampa Bay Rowdies

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Além disso, antes do Rei, o “Pantera Negra” Eusébio foi contratado pelo Boston Minutemen e mesmo debilitado pelas contusões no joelho, foi essencial para levar o time aos Playoffs.

O que não acontece com o Cosmos de Pelé, que ao estrear no terrível gramado – se é que podemos chamar aquilo de gramado – do Dallas Tornado, no empate em 2 x 2 em que ele faz o segundo gol para equipe de Nova York, o Rei descobre que mesmo nem o melhor de todos os tempos daria jeito num time tão ruim quanto aquele.

Mesmo assim, com a presença de Pelé a Liga muda de Status.
A média de público de duas mil pessoas começa a atingir 20 ou trinta mil nos jogos do Cosmos.

Até mesmo os jogos em que Pelé não participa, mas aparece antes do jogo para saudar as torcidas.

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Voltando para a temporada de 1975 – os Playoffs, assim como nos anos anteriores, reuniram muitas das franquias estreantes – com destaque para o Portland Timbers do inglês Peter White, que jogou no Nothingham Forest de Brian Clough e para o Tampa Bay Rowdies do Iraniano Farrukh Quraishi e do inglês Stewart Jump.

  • Nas quartas o Portland Timbers superou o vizinho Seattle Sounders – no que podemos dizer, foi o primeiro grande jogo da rivalidade entre os dois times.
  • O St. Louis Stars do goleiro inglês Peter Bonetti venceu o Los Angeles Aztecs nos pênaltis.
  • O Miami Toros de Steve David – MVP da temporada regular – superou o Boston Minutemen de Eusébio
  • E o Tampa Bay Rowdies superou o Toronto Metros – que neste mesmo ano se uniu com o Toronto Croatia, time de imigrantes da Liga Canadense e mudou de nome para Toronto Metros-Croatia.

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Nas semifinais, os dois melhores times da primeira fase – Portland e Tampa Bay – confirmam o favoritismo, vencem e chegam à final da Liga.

Quer dizer… Final não. SOCCER BOWL!!!

Nome dado para a final do Torneio e que obviamente teve inspiração no SUPER BOWL do Fuebol Americano e seguia a ideia de escolher uma cidade para sediar a final antes mesmo de sabermos quem seriam os finalistas.

Soccer Bowl 75 | Portland Timbers vs. Tampa Bay Rowdies. Aug… | Flickr
Capa da Revista KICK

E na final disputada num Spartan Stadium em San José na California os Rowdies foram bem melhores e com gols de Arsene Auguste, Haitiano que jogou a Copa de 1974 e de Clyde Best, jogador nascido em Bermuda e um dos primeiros jogadores negros a jogar no futebol da Inglaterra, pelo West Ham – venceu por dois a zero e ficou com a taça.

Soccer Bowl 75′

Enquanto os playoffs aconteciam, o New York Cosmos decidiufazer uma excursão pela Europa e América Central.

A cada jogo com seus novos companheiros, bem diferentes dos que estava costumado, Pelé foi deixando cada vez mais claro para os diretores da franquia presentes na viagem que aquele time não seria o suficiente para vencer a Liga e muito menos para ser uma atração para o público por um longo tempo.

Clive Toye – o nome indicado por Steve Ross para dirigir o Cosmos – sabia bem o que fazer.

Repassar a mensagem do Rei do Futebol para Steve Ross e receber o OK para seguir em frente, reforçar o time e claro, com Pelé no elenco ficava muito mais fácil convencer outros jogadores a se juntarem ao time.

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A presença de Pelé na Liga também fez com que as portas se abrissem para grandes jogadores do futebol mundial também nas outras equipes.

Vendo os números de público aumentarem em jogos do Cosmos, tanto em Nova Iorque ou fora de casa, muitos donos de franquia foram atrás do seu SUPERSTAR para atrair novos espectadores e a Inglaterra, país que sempre forneceu nomes de clubes ou divisões inferiores, desta vez começava a fornercer à North American Soccer League grandes nomes que, na maioria dos casos estava buscando um momento de paz

  • O Seattle Sounders conseguiu contratar Geoff Hurst, autor de três gols na final da Copa do Mundo de 1966.
  • O San Antonio Thunder tira Bobby Moore do Fulham
  • O Tampa Bay Rowdies, campeão o ano anterior contratou Rodney Marsh um dos tantos meias talentosos, mas não muito disciplinados – conhecidos como MAVERICKS – com passagens pelo Manchester City e Queen Park Rangers.
  • E o Los Angeles Aztecs – que naquele ano foi adquirido por ninguém mais ninguém menos que o cantor Elton John – fechou negócio com a lenda do Manchester United Geroge Best, que no ano anterior chegou a negociar com o NY Cosmos, mas desistiu de última hora.

E com todos estes nomes a temporada começou cheia de expectativas.

O aumento da competitividade, o surgimento de rivalidades, os números crescentes de público e audiência e grandes nomes do futebol desfilando pelos gramados deixavam todos empolgados.

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Na temporada regular – ou na primeira fase – o destaque fica por conta do Campeão da temporada anterior – o Tampa Bay – que fica na frente do NY Cosmos na Conferência Leste.

Aliás um dos maiores jogos da história a NASL acontece entre os dois times na primeira fase:

Com uma atuação histórica de Rodney Marsh, o Rowdies atropelou o Cosmos de Pelé e agora também do ótimo atacante italiano Giorgio Chinaglia – vindo da Lazio – por 5 x 1.

Nem a vitória por 5 x 4 no jogo do segundo turno disputado em NY fecharam as cicatrizes deixadas no primeiro jogo, em que Marsh provocou o time de Pelé e Cia e por muito pouco os times não quebraram o pau.

Tampa Bay Rowdies 5 x 1 Ny Cosmos

O regulamento da temporada de 1976 previa que os melhores times de cada divisão seguiriam diretamente para as quartas de final e o segundo e terceiro colocados fariam uma repescagem para ocuparem as outras vagas das quartas.

  • O Tampa Bay de Rodney Marsh
  • O Chicago Sting de John Kowalik – artilheiro da primeira temporada da Liga em 1968
  • O San Jose Earthquakes do português Simão
  • E o Minessota Kicks passaram direto para as oitavas.

Cosmos, Toronto Metros, Dallas Tornado e Seattle Sounders passaram na repescagem e continuaram na competição.

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O jogo mais esperado era a final da Conferência Leste.

Um novo encontro entre o NY Cosmos de Pelé e Chinaglia contra o Tampa Bay de Rodney Marsh e Derek Smethurst disputado no Tampa Stadium numa bela noite de sexta-feira.

Os dois primeiros foram cheios de provocações, entradas ríspidas e reclamações dos dois lados.

  • Por parte do Cosmos a principal reclamação era com o comportamento de Rodney Marsh nos dois jogos, provocando todos os jogadores do Cosmos.
  • Já pelo lado do Rowdies a reclamação era bem parecida com a de todos os adversários do Cosmos, que diziam que o time de Nova Iorque parecia ser protegido pelos árbitros, que se faziam de coitados e os questionavam em todas as suas decisões.

Ou seja, nada muito diferente do que vimos e ouvimos hoje em dia.

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Quando a bola rola, Pelé abre o placar para o Cosmos, que mesmo tendo bons nomes no ataque, sofre demais na defesa para marcar um time muito mais equilibrado e com o ótimo trio formado por Clyde Best, Derek Smethurst e claro – Rodney Marsh.

O que vemos a seguir do gol de Pelé é uma reação avassaladora do time da casa que faz três gols e impõe uma vitória inquestionável sobre o rival.

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O resultado incomoda os donos do time e os grandes nomes do vestiário.

Pelé cobra Chinaglia por individualismo e o italiano rebate dizendo que o camisa dez não parecia estar se dedicando o suficiente e mais preocupado com a vida fora de campo.

Os dirigentes tentam colocar panos quentes nas discussões e fazer com que as estrelas superem se entendam.

A crítica, principalmente de fora dos Estados Unidos, questiona todo o investimento e a badalação em volta do time que em campo não entrega o esperado.

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Voltando agora para as decisões das outras divisões:

  • O Toronto Metros Croatia de Eusebio e de Ivair “O PRÍNCIPE” superou o Chicago Sting na final da Divisão Norte
  • O San Jose superou o Dallas Tornado na Divisão Sul
  • E o Minessota Kicks comprovou sua superioridade na Divisão Oeste e eliminou o Seattle Sounders

Durante as pesquisas, ao buscar informações sobre os jogos da fase final, era claro uma superioridade no nível dos times das divisões Norte e Leste em relação aos times das Divisões Sul e Oeste que fariam a outra semifinal.

Na final do Pacífico, a de nível mais baixo o Minesota Kicks venceu por 3 x 1 o San José.

Na final do Atlântico, o Tampa Bay Rowdies e Toronto Metros fizeram um jogaço e com direito a gol com uma troca de passes entre Ivair e Eusébio o time canadense venceu o Campeão do ano anterior e chegou à final, com direito a gol com tabela entre o Pantera Negra Eusébio e O Príncipe Ivair.

Tampa Bay Rowdies 1 x 2 Toronto Metros-Croatia

O Soccer Bowl de 1976 foi disputado no Kingdome em Seattle. Estádio inaugurado naquele ano para receber jogos de todas as equipes e esportes da cidade de Seattle.

Assim como na semifinal, o time canadense com raízes croatas dominou a partida.

O Toronto Metros-Croatia – que no canal CBS era apenas chamado de Toronto Metros, pois havia uma regra informal de deixar a liga com uma identidade mais local – saiu na frente com um golaço de falta de Eusébio.

No segundo tempo foi a vez dos outros dois nomes do trio ofensivo do time chegarem as redes e confirmarem a superioridade no placar.

  • Ivan Lukačevic aos oito do segundo tempo.
  • E brasileiro Ivair aos 37 minutos fez o gol que resolveu a partida e deu o primeiro título da NASL para uma equipe canadense.

AS ESTRELAS DECIDIRAM BRILHAR

1977 era o último ano de contrato de Pelé com o Cosmos e por mais que fora de campo tudo estivesse muito bem, com um faturamento considerável em publicidade, com os direitos de imagem sobre o Rei e claro, com os grandes públicos, faltava o mais importante – um título.

Mesmo sendo a sensação da Liga, gerando interesse de pessoas do mundo todo e utilizado como uma ótima ferramenta de relacionamento e de negócios pela Warner, que levava todos os famosos do Show Business para presenciar um jogo do time, dentro do mundo do futebol e no dia a dia da equipe, não ser campeão tendo o melhor jogador de todos os tempos incomodava e muito.

Pelé por outro lado, não parecia estar muito preocupado com isso, pois praticamente abandonou o clube semanas antes do início da Liga e apareceu apenas cinco dias antes da primeira rodada. O que deixou nomes como o goleiro Shep Messing, o capitão Werner Roth e principalmente Giorgio Chinaglia bem incomodados.

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Deixando agora o Cosmos um pouquinho de lado para falar dos outros times, podemos dizer que o ano de 1977 pode ser considerado O ANO da North American Soccer League.

Mesmo com a falência de duas franquias – o Boston Minutemen e o Philadelphia Atoms – os times continuavam contratando bons nomes pelo mundo afora.

Fossem eles grandes estrelas em fim de carreira como o goleiro inglês Gordon Banks ou bons jovens de divisões menores de países com maior tradição no futebol.

Até as franquias que se mudaram

  • Como do Miami Toros que se tornou o Fort Lauderdale Stikers
  • O San Diego Jaws que se tornou o Las Vegas Quicksilvers
  • E o San Antonio Thunder que se tornou o time mais inesperado da liga – o Team Hawaii

Foram para lugares mais atraentes e algumas delas adquiridas por donos mais ricos, aumentado a receita e a competitividade da liga.

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A Temprada Regular foi de altíssimo nível e muito equilíbrio.

Pela Conferência do Atlântico:

  • O Fort Lauderdale de Gordon Banks tirou proveito do momento bagunçado do Cosmos e foi o melhor time da Divisão Norte, seguindo direto para as quartas e deixando os rivais de Nova Iorque e Tampa – o Tampa Bay Rowdies – se enfrentarem na repescagem.
  • Já na Divisão Norte o Toronto manteve o alto nível da temporada anterior e seguiu para as quartas, deixando St Louis e Rochester Lancers para a repescagem

Já do outro lado, na Conferência do Pacífico:

  • O Dallas Tornado foi o time com mais pontos na Divisão Sul, mas a sensação foi o Los Angeles Aztecs do genial George Best com o estilo de jogo mais atraente da Liga.
  • E por último, mas não menos importante. O Minessota Kicks do meia inglês Alan West foi o melhor time da Divisão Oeste deixando a bucha da repescagem para o Seattle Sounders e o Vancouver Whitecaps.

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Voltando nossos olhares novamente para equipe de Nova Iorque, como falamos anteriormente, o Cosmos viva um momento conturbado.

Pelé e Chinaglia viviam uma relação de amor, ódio e muita genialidade, praticamente carregando nas costas um time fraco tecnicamente.

Chinaglia tinha uma relação muito próxima com os diretores do clube e com Steve Ross, que simplesmente idolatrava o atacante italiano e adorava o fato dele ser um jogador muito mais aberto a um contato direto, pois Pelé era muito mais reservado e fora de campo tinha uma vida bem diferente do restante do elenco.

Antes dos Playoffs os dois tiveram influencia total na mudança de rota do time ao ajudar o time a tomar decisões fora de campo que tiveram impacto direto no restante da temporada dentro de campo

  • Pelé continuava reclamando do nível dos companheiros, principalmente dos jogadores do sistema defensivo e Clive Toye, principal diretor do time decidiu resolver de uma vez o problema contratando para o time Carlos Alberto Torres, Rildo e Franz Beckenbauer.
  • Já Chinaglia, jogador que sempre se doava 100% em campo, mas que começava a dar sinais de cansaço no fim da primeira fase, em uma das partidas foi colocado no banco por Gordon Bradley e não gostou nada daquilo.
    • Chinaglia reclamou com seu maior fã e dono do time, Steve Ross, que não pensou duas vezes, mandou Bradley embora e contratou o ex-treinador do Tampa Bay Rowdies – Eddie Firmani – amigo de longa data do atacante italiano e que havia pedido demissão de forma inesperada do time rival.
Por que o Cosmos -- que já teve Pelé e Beckenbauer -- não conseguiu entrar  na MLS - YouTube
O “Novo NY Cosmos” de Carlos Alberto, Beckembauer, Chinaglia e Pelé

Por mais que não tenha sido a melhor forma de se trocar de treinador, a estratégia deu certo.

Na repescagem contra o principal rival da Conferência, o time não começa bem e faz um primeiro tempo bem abaixo, lembrando bastante o time desorganizado do começo da temporada.

Pelé e Chinaglia descem para o vestiário discutindo, e a bronca dada por Eddie Firmani durante o intervalo serviu como uma motivação para os dois grandes nomes do time.

  • Pelé faz o primeiro.
  • Chinaglia estufa as redes para marcar o segundo depois de um cruzamento de Steve Hunt
  • E de novo o Rei, faz o terceiro para levar o time nova-iorquino para a final da Divisão, onde enfrentariam o Fort Lauderdale Strikes – o melhor time da temporada regular.

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O primeiro jogo, disputado no Giants Stadium, provavelmente foi a maior atuação do NY Cosmos em sua história.

O público de quase 78 mil espectadores – recorde da temporada – viu um desfile dos craques, principalmente de Beckenbauer, que comandou o time numa goleada avassaladora:

Um 8 x 3 diante do melhor time da Temporada Regular e que tinha na sua meta Gordon Banks.

Porém, se no primeiro jogo Banks sofreu, no segundo teve uma atuação de gala e foi o responsável por segurar o empate por 2 x 2 no tempo normal e no tempo extra.

E aqui surge mais uma bizarrice, ou mais uma novidade na NASL:

Não havia saldo de gols nas decisões de Divisões e o regulamento daquele ano previa que nenhum jogo terminaria empatado, pois os times jogariam um tempo extra com o Gol de Ouro e caso o gol não saísse eles fariam uma disputa de Shoot-Outs ao invés das tradicionais cobranças de penalidades para definir o vencedor.

No Shoot-Out o jogador corre em direção ao gol de uma distância de um pouco menos de 30 metros e tem cinco segundos para definir a jogada.

Algo muito parecido com o que a MLS implantou no início da sua história e, caso você jogue Futebol Society ou Fut7 sabe que os jogos também são decididos assim em caso de empate.

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Depois da explicação e voltando para o jogo e para a loucura do regulamento, por ter a melhor campanha, mesmo tendo perdido uma partida por 8 x 3 e empatado a outra no tempo normal, caso o Fort Lauderdale Strikers vencesse a disputa de Shoot-Outs ele se classificaria para a final.

Porém, o goleiro que brilha nas cobranças é Shep Messing que defende quatro tentativas do Strikers e classifica o time para encarar o Rochester Lancers na decisão da Conferência do Atlântico.

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Do outro lado, na Conferência do Pacífico a final envolveu O Los Angeles Aztecs de Geroge Best e o Seattle Sounders de Jim McAllister – o Rookie of the Year – ou melhor, o jovem destaque da temporada.

No primeiro jogo em Los Angeles o Sounders fez uma partida impecável e venceu por 3 x 0, praticamente encaminhando a classificação, que veio depois de uma vitória segura em casa por 1 x 0.

O time da Cidade da Esmeralda, como é conhecida Seattle, agora esperava o adversário do outro lado.

Quer dizer, esperava não, pois ele já imaginava o que teria que encarar na final em Portland. Pois o Cosmos da segunda fase era um time totalmente diferente da temporada regular.

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As picuinhas entre os jogadores foram superadas, o novo treinador Eddie Firmani, tinha um comportamento muito mais amigável e isso deixava todas as estrelas satisfeitas, seja lá qual fosse a sua nacionalidade.

Além disso, ele fez uma mudança crucial ao adiantar um pouco mais Franz Beckenbauer, dando a ele mais liberdade para chegar ao ataque e ser o principal criador de jogadas do time, abastecendo Steve Hunt, Pelé e Chinaglia.

A mudança de postura do Rei também ajudou demais. Pelé sabia que não seria legal para sua imagem passar pelos Estados Unidos, jogar no time mais rico da Liga e não ganhar sequer um título.

Por isso, deixou de lado por um tempo os compromissos e badalações do extracampo e se dedicou mais aos treinos e assumiu o papel de líder do time.

E como vimos anteriormente, na segunda fase os resultados vieram.

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O último obstáculo antes do Soccer Bowl era o Rochester Lancers do bom atacante iugoslavo naturalizado canadense Mike Stojanovič.

No primeiro jogo, disputado no Holleder Memorial Stadium a vontade e dedicação de Pelé impressionou a todos. Ele parecia onipresente, dando piques para recompor a marcação, e combatendo como se fosse um médio volante.

Já com a bola, jogava mais recuado, organizando o jogo com Beckenbauer e criando chances para Steve Hunt, Tony Field e Giorgio Chinaglia.

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Neste jogo, que terminou com a  vitória por 2 x 1 do Cosmos, ele não chega a marcar, mas sai como melhor em campo disparado.

Já no jogo de volta, num Giants Stadium com mais de 73 mil pessoas o público viu o lado mais Genial de Pelé, que desfilou em campo, fez um gol e comandou o time na goleada por 4 x 1 levando o time ao Soccer Bowl.

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O estádio fez festa com cara de conquista de título, mas o Rei pediu calma, disse que faltava mais um jogo.

Pelé dando entrevista após a classificação do NY Cosmos para o Soccer Bowl 77′

A final foi no dia 28 de agosto de 1977 no Civic Stadium em Portland – estádio que hoje é conhecido como Providence Park.

O Civic Stadium era um dos muitos estádios em que o campo era de grama artificial.

Quer dizer… Talvez nem podemos chamar aquilo de grama, mas sim de um tapete verde, ou ASTRO TURF, nome dado a este tipo de superfície nos Estados Unidos.

Jogar neste tipo de grama artificial era uma das coisas que os jogadores internacionais, principalmente as principais estrelas mais reclamavam, pois além de trocarem as chuteiras por um tênis – muitos deles usavam o lendário ADIDAS SAMBA – a bola pingava demais e deixava o jogo mais rápido e menos técnico, um terror para jogadores mais habilidosos e em final de carreira.

Solado do Tênis ADIDAS SPEZIAL TURF, usado em campos de grama sintéticas da NASL

Quando a bola rola na final o domínio do jogo é do time de Seattle com os ingleses Tommy Ord e Micky Cave dando trabalho ao goleiro Shep Messing.

O Sounders chega a fazer um gol, mas ele é anulado corretamente pois Tommy Ord estava em posição irregular.

Minutos depois o goleiro canadense Tony Chursky do Seattle sai para fazer uma defesa e depois de ficar com a bola nas mãos, decide soltá-la no chão para sair jogando.

O que ele não esperava era que Steve Hunt estivesse atrás dele, e o atacante do Cosmos roubou a bola e faz o primeiro gol da noite para o time de Nova York.

O Sounders praticamente não sente o gol e cinco minutos depois, aos 23 minutos, Tommy Ord marca novamente, mas desta vez está em posição legal, para empatar e colocar novamente o time de Seattle no controle da partida.

O segundo tempo começa e o Soudners ainda controla o jogo, obrigando o goleiro Shep Messing a fazer duas defesas difíceis.
Mas em um contra ataque pelo lado esquerdo aos 27 minutos, Steve Hunt faz um cruzamento perfeito para encontrar o artilheiro Chinaglia que escorou para ampliar e na comemoração, como fazia muitas vezes, correu em direção ao local onde Steve Ross estava no estádio e fez uma dancinha na direção do amigo e dono do time.

Depois disso, o Sounders sentiu demais o gol e o time de Nova Iorque dominou o final da partida.
Pelé teve duas boas chances de fazer o dele, mas a partida seguiu com o placar de 2 x 0 e depois do apito do arbitro Toros Kibritjan o Cosmos de Pelé, o Cosmos das Super Estrelas, o badalado Cosmos pôde finalmente levantar a taça, para a felicidade e alívio dos seus donos e principalmente do Rei do Futebol.

Soccer Bowl 77′

Um mês depois da tão desejada conquista, o dia de dizer adeus, por mais que todos torcessem para que este dia nunca chegasse, já estava agendado.

O Primeiro de Outubro de 1977 ficou marcado como o dia em que o Rei pendurou as chuteiras em um amistoso festivo contra o Santos no Giants Stadium.

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Antes do jogo, Pelé fez um belo discurso dedicado às crianças – o discurso em que ELE DISSE LOVE – e que virou até canção na voz do genial Caetano Veloso.

Com a bola rolando ele jogou um tempo para cada lado e quis o destino que ele marcasse um gol contra o Santos na vitória do Cosmos por 2 x 1 – gol que levou o narrador Walter Abraão a se emocionar

NY Cosmos 2 x 1 Santos – Partida de despedida de Pelé

Pelé encerra sua carreira e ao mesmo tempo a sua passagem pelos Estados Unidos deixando um legado incalculável após estes quase três anos na equipe de Nova Iorque.

Dentro de campo a sua presença fez com que – e aí o que eu vou dizer aqui não tem exagero algum por mais que pareça – um povo que sequer sabia da existência do esporte, sair das suas casas ou ligarem a TV para conhecerem uma nova prática esportiva e conseguiu com que muitos deles se apaixonassem pelo futebol, ou melhor – pelo SOCCER.

Fora dele, foi o primeiro que de forma direta conseguiu reunir famosos de Hollywood, músicos ou qualquer outro tipo de celebridade em volta de um time de futebol e até hoje é um Case de Sucesso de Marketing, Licenciamento e Uso de Imagem.

O Rei cumpriu a sua missão.

Entregou a Liga no seu auge, com recordes de público, recheadas de bons jogadores e com a cultura do futebol se espalhando pelo país.

A responsabilidade de manter a engrenagem funcionando em alta velocidade e na direção certa estava nas mãos dos organizadores da Liga e dos donos das Franquias.

E este será o tema do terceiro e último episódio da série: o que aconteceu com a Liga depois da saída de Pelé e qual caminho ela tomou depois de ter vivido o seu auge.

Para saberem quando o novo episodio estará no ar você já sabe, só nos seguir nas redes sociais:

No Twitter @pitadinhaH e no Instagram @pitadinha_historica

Um abraço a todos e até mais.

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