A República Populista do Futebol

Sem regular a mídia, governo se torna refém do setor privado - Carta Maior

Em um espaço de 15 dias, pichações surgiram no Centro de Treinamento do Time Campeão da América após o time perder duas finais nos pênaltis e fogos de artifícios explodiram em frente a moradia de um treinador após a derrota para um rival pelo Campeonato Estadual em que ele utilizou os times reservas preservando os titulares para uma partida contra um dos maiores times do continente.

Enquanto isso no YouTube, jornalistas e torcedores – e aqui fica difícil definir quem é quem – há quase um ano estão comparando o trabalho de um treinador com mais de trinta anos de experiência com o de um jovem treinador com quatro anos de carreira e que treina o melhor time do Brasil durante uma pandemia.

Do outro lado desta “sociedade”, quem comanda e decide o futuro do futebol no Brasil segue a assombrosa Cartilha Política do nosso país: Pouca Inteligência, Muita Corrupção, Muita Hipocrisia, Muito Conservadorismo e principalmente Muito Populismo.

E aqui que mora o grande perigo.

Por mais que seja um clichê do cacete, o comportamento do Futebol é simplesmente um reflexo do comportamento da nossa sociedade. Para o bem e para o mal.

E um dos grandes maus da sociedade atual tem sido a obsessão por aceitação. Principalmente nas redes sociais.

Ser aceito nas redes sociais significa ganhar Likes, visualizações, elogios, seguidores e tudo isso infla o ego, faz um bem danado para alma e para o bolso, mas quase que de maneira inconsciente muda o comportamento de todos envolvidos neste círculo vicioso do esporte que tanto amamos.

Aí que tudo se embaralha e se confunde, pois na busca por um reconhecimento POPULISTA:

O YouTuber pensa que é jornalista.

O jornalista pensa que tem que se comportar como YouTuber.

O presidente de Clube pensa que tem que ser mais conhecido do que o jogador.

O jogador pensa que tem que ser influencer (no pior sentido da palavra).

O influencer pensa que pode ser jogador.

Enquanto este círculo vicioso da busca por aceitação vai se espalhando como um Ciclone pelo nosso futebol, levando tudo e todos que encontra pela frente, um personagem principal de toda essa loucura tem sido cada vez mais o principal alvo deste “fenômeno natural” do futebol.

A figura do treinador.

O treinador, que sempre andou numa corda bamba no nosso país, hoje virou um alvo de cobranças constantes por todas as ações de uma estrutura complexa, corrupta e muitas vezes amadora dos departamentos de futebol dos clubes.

O que a maioria faz para se manter aceito no círculo vicioso? Se adapta.
Entra no círculo vicioso da aceitação populista e da mediocridade ao invés de tentar expressar todo o seu conhecimento.

Portanto, se até o personagem que, em teoria, deveria ser o responsável por compartilhar conhecimento e diretamente impactar um núcleo de uma sociedade se vê obrigado a abrir mão de algo tão precioso que é o seu conhecimento para seguir uma cartilha medíocre de conteúdo que agrade os seus líderes populistas e que lhe garanta o emprego, como cobrar que os personagens que fazem parte do sistema, empolgados com os Likes que seus conteúdos também medíocres e populistas geram, mudem o comportamento?

O Brasil forma treinadores, jogadores e jornalistas incríveis.
Se engana quem pensa que nossa escola de treinador é extremamente pobre, ou que nosso jornalismo está de mal a pior por causa da falta de conteúdo inteligente nas grandes mídias.

O problema é que, assim como na sociedade – e principalmente na política – o sistema engole muitos destes ótimos profissionais, que de maneira consciente ou inconsciente se transformam em algo mais aceito pela mediocridade que toma conta do nosso país em todos os sentidos, privilegiando o resultado imediato ao compromisso de informar, educar e compartilhar conhecimento. Pontos comuns do jornalista e do técnico de futebol.

Os últimos anos provaram que o “Jeitinho Brasileiro”, algo que por muitos anos serviu de muleta para corrupção, informalidade e para a falta de uma estrutura de educação decente nesse país é algo mais do que ultrapassado, mas nosso conservadorismo tosco e alienador infelizmente não nos deixa perceber.

No futebol e no jornalismo futebolístico, o “Jeitinho Brasileiro” símbolo da REPÚBLICA POPULISTA DO FUTEBOL, vai nos mantendo numa areia movediça da mediocridade onde discutir futebol, compartilhar conhecimento e tomar decisões drásticas que realmente deem resultado são coisas mal vistas e ações de curto prazo tomadas sem fundamento algum, o sensacionalismo e as discussões vazias que alienam a bolha do futebol, geram Likes e servem para pagar as contas nos mantêm apenas sobrevivendo neste Terceiro Mundo da Bola que infelizmente estamos nos acostumando a viver.

O problema é que, quanto mais movimentos bruscos e sem inteligência um corpo fizer na areia movediça, mais o corpo é puxado para baixo.

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