Um “FEEDBACK” para Abel

Fala Abel… Tudo bem cara?

Espero que esteja desfrutando o fato de ter conquistado a vaga para a final da Libertadores.
Você tem feito um bom trabalho apesar dos resultados decepcionantes no Mundial e de um certo questionamento com a forma como você vê o jogo.

Mas não é sobre isso que eu queria falar com você, se trata de um outro assunto. Senta-se aí, respira e fique tranquilo que é coisa boa. Algo que vai te ajudar no futuro.

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Talvez nos dez anos de estudos sobre futebol você tenha lido ou escutado que no início do futebol português a presença dos treinadores húngaros foi essencial para o desenvolvimento do jogo por lá.

Nomes como Joseph Szabo, Lippo Hertzka e Miguel Siska levaram toda evolução tática e técnica que acontecia na Europa Central para o país e com isso o futebol foi crescendo de uma forma impressionante em Portugal.

Décadas depois, aproveitando-se muito dos talentos que vinham das colônias portuguesas na África o futebol português atravessou de vez as fronteiras e conquistou a Europa.
Mais uma vez um húngaro, que por sorte nossa também deixou todo o seu conhecimento no Brasil, teve uma grande responsabilidade por isso. Bela Gutmann.

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Já na seleção portuguesa, um brasileiro, SIM… UM BRASILEIRO foi responsável por liderar um time que contava com dois Moçambicanos como os melhores jogadores e que levou a seleção Lusitana à sua melhor campanha em uma Copa do Mundo.

Ah, este mesmo senhor, chamado Otto Glória, tem 5 títulos da liga portuguesa e quatro da Taça de Portugal.

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Depois deste período dourado as coisas mudaram bastante.
A seleção ficou décadas com participações medíocres em praticamente todos os torneios e apenas em meados da década de setenta, com a presença de um argelino e de um brasileiro um clube português voltou a conquistar um torneio continental.
Time liderado por Arthur Jorge, que assim como Jesualdo Ferreira e Jorge Jesus, têm três títulos da Liga Nacional.

E apenas reforçando, eles ficam atrás de um brasileiro, e de um húngaro em número de conquistas do campeonato português.

Mas imagino que você saiba disso tudo. Estudou por dez anos e continua estudando até hoje.

Pois bem, dito tudo isso, fica aqui uma sugestão:

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Pare com essa idiotice de dizer que tudo que aconteceu por aqui com você e com o Palmeiras tem ligação com o foco e a dedicação europeia.
De que a conquista da Libertadores e da Copa do Brasil aconteceram graças à sua chegada e a transformação total do clube e dos jogadores. Quase que num passe de mágica.

Você deveria agradecer demais pelo departamento de Futebol do Palmeiras ter escolhido o treinador do PAOK que eliminou Jorge Jesus para comandar o time e com isso ter a oportunidade de liderar uma equipe apoiada nos últimos anos por pesados investimentos. Provavelmente um dos maiores, se não o maior da América Latina nas últimas décadas.

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Novamente, parabéns por chegar mais uma vez na final do torneio mais importante do continente. Claro que isso tem ligação com o seu trabalho.
Mas pelo amor de Deus, não venha com esse papo de colonizador de merda de que o Europeu trabalha mais e de que tem mais foco.

Isso se xama Xenofobia. É desrespeitoso até com todos os brasileiros que trabalham à sua volta. Sejam da comissão e é claro, os jogadores.

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Se nestes dez anos de estudos não ficou claro para você de que este esporte, principalmente nos dias de hoje, conta com referencias e MUITO TRABALHO de pessoas de diversos lugares, regiões, culturas e comportamentos, sugiro que volte algumas casas e repense este ponto de vista.

E claro… o principal conselho: BAIXE A BOLA.

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Você é novo, talentoso, privilegiado e exatamente por isso precisa deixar de lado esse papo furado de COACH MOTIVACIONAL de que trabalha mais do que os outros e por isso chegou aonde está.

Até porque, cá entre nós, o esquema até funcionou e tal, mas… É a segunda vez que teu time fica durante todo o  segundo jogo de uma semifinal no limite entre a classificação e a eliminação.

E para dez anos de estudo, com esse elenco milionário é bem pouco.

Um abraço.

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PS: Esse papo furado de vizinho chato também hein… Que papagaiada. Lembrou a patética carta da Dona Lúcia. Pare com essa idiotice.

Anos Incríveis: A História da NASL – Pt. 3

DEMOROU, MAS CHEGOU!!! Finalmente no site o Terceiro e último episódio da série que conta a história da NASL – a NORTH AMERICAN SOCCER LEAGUE.

Recapitulando aqui os dois primeiros textos que estão aqui no nosso blog:

  • No episódio UM desta série contamos com detalhes o surgimento da Liga, seus primeiros anos e a luta para se estabelecer, ganhar respeito e reconhecimento.
  • No episódio DOIS falamos sobre o auge da liga, com destaque para a passagem de Pelé pelo Cosmos e quando o mundo pela primeira vez viu uma verdadeira LIGA DAS ESTRELAS.

E agora, no terceiro e último falaremos sobre como a empolgação com Pelé e a busca incessante por grandes estrelas para manter a liga atraente como nos anos de ouro não compensou a falta de um trabalho de base para a sustentação e crescimento do Soccer no país, fazendo com que a Liga chegasse a uma crise tão profunda que a fizesse fechar as portas.

Pelé se despediu no fim de 1977 dos gramados, mas além de permanecer como o “Embaixador” do NY Cosmos, deixou um legado muito importante para a Liga.

A passagem do Rei pelos Estados Unidos não só impulsionou tanto os resultados do Cosmos e da Liga dentro e fora de campo como fez com que os donos dos outros times concluíssem que seria necessário ter em suas equipes uma ou mais estrelas para que os resultados financeiros e esportivos viessem automaticamente.

O crescimento da NASL e o sucesso com o público americano, principalmente mulheres e os mais jovens, também fez com que os organizadores da liga se sentissem mais à vontade para deixá-la cada vez mais com a identidade de um esporte americano.

Prova disso é que ainda na temporada de 1977 o NY Cosmos já contava com as Cosmos Girls – ou melhor dizendo – as Cheerleaders do Cosmos em seus jogos, assim como os mascotes – tão tradicionais nos outros esportes – que mesmo com fantasias de qualidade no mínimo duvidosa, faziam sua festa na tentativa de animar as torcidas.

A temporada de 1978 traz muitas novidades, como a chegada de seis novos times:

  • O Colorado Caribous com seu espetacular uniforme.
  • O Detroit Express
  • O Houston Hurricane
  • O Menphis Rogues
  • O New England Tea Man – sim o time do homem do chá
  • E o Philadelphia Fury.

Além disso quatro franquias mudaram de cidade:

  • Connecticut Bicentennials tornou-se o Oakland Stompers
  • O Las Vegas Quicksilver – que mesmo fazendo jogos festivos envolvendo uma atriz pornô para promover a equipe, foi um fracasso e se tornou o San Diego Sockers
  • O St Louis Stars se tornou o California Surf
  • E o Team Hawaii, SIM TIVEMOS UM TIME NAS ILHAS DO HAWAI, também foi um fracasso. A franquia se mudou para Tulsa, tornando-se o Tulsa Roughnecks.

O crescimento não foi apenas no número de equipes, mas também nos números de grandes estrelas, na tentativa de manter a liga atraente depois da saída de Pelé

Os destaques do futebol inglês se mantinham como os favoritos; e nesta temporada George Graham – escocês, ídolo do Arsenal – foi contratado pelo California Surf e o Detroit Express surpreendeu a todos ao contratar Trevor Francis do Nottingham Forest.

Além dos nomes da terra da Rainha, os destaques nas contratações foram o meia o iugoslavo Vladislav Bogicevic que foi para o Cosmos e o brasileiro Mirandinha que chegou para ser companheiro de Rodney Marsh no Tampa Bay Rowdies.

Outra mudança na competição foi a divisão das equipes, que agora, graças a inspiração vinda da NFL, as conferências passariam a se chamar AMERICAN e NATIONAL.

Dos 24 times da primeira fase 16 seguiriam para as oitavas de final – oito de cada conferência – e o regulamento previa confronto entre eles dentro da conferência até que os campeões de casa uma delas se enfrentassem no Super Bowl – que seria disputado no Giants Stadium no final de agosto.

Os destaques da primeira fase foram o Detroit Express de Trevor Francis e o NY Cosmos, que perdeu Pelé, mas manteve Carlos Alberto, Beckenbauer e principalmente Giorgio Chinaglia – que se com Pelé no elenco conseguia dividir as atenções com o Rei, agora era praticamente o dono do time.

Nas quartas de final a maioria dos favoritos confirmaram sua superioridade, com exceção do estreante New England Tea Man, que mesmo sendo o segundo melhor time da conferência Americana foi eliminado pelo irregular Fort Lauderdale Strikers de George Best.

Nas semifinais as partidas foram bem mais equilibradas.

  • Pela conferência americana o Fort Lauderdale mais uma vez surpreendeu ao eliminar o Detroit, melhor time da primeira fase
  • E na outra semifinal um jogaço entre o San Diego Sockers e o Tampa Bay Rowdies de Marsh e Mirandinha prevaleceu a força do já tradicional time do estado da Flórida.

Já pela conferência Nacional tivemos o Timbers surpreendendo o Vancouver Whitecaps do Rookie of the Year Bob Lenarduzzi – que jogou a Copa de 1986 pela seleção canadense e na outra semifinal,

Bem… para a outra semifinal, a semifinal que envolveu o que a revista especializada KICK considerava ser os times mais populares dos Estados Unidos – o Minessota Kicks e o NY Cosmos, teremos que contar com um pouco mais de detalhes o que aconteceu.

O Minessota Kicks foi vice-campeão na sua temporada de estreia em 1976 e assim que a franquia surgiu ela se tornou uma atração na cidade, sempre tendo uma média de público entre 25 e trinta mil espectadores durante as temporadas.

Mais do que o jogo, o Tailgate – ou melhor dizendo – o pré-jogo em volta do estádio era uma atração especial, pois ao contrário dos tradicionais churrascos com grupos de homens entre 30 e 40 anos bebendo cerveja e fazendo churrasco como nos jogos do Vikings – time da NFL na Cidade – o que se via em volta do Metropolitan Stadium era um amontoado de jovens bebendo, usando drogas e ouvindo música como se estivessem num palco secundário do Woodstock.

Já o time contava com ótimos nomes, como Charlie George – autor do gol que deu o título da FA Cup para o Arsenal em 1971 – o sul-africano Ace Ntsoelengoe e o artilheiro inglês Allan Willey que até o confronto já havia feito 18 gols na temporada.

O time de NY, ao contrário do que foi visto na temporada anterior, era muito mais regular, com Chinaglia e Bogivevic mantendo um nível altíssimo durante toda a temporada e os geniais Carlos Alberto e Beckenbauer, mesmo claudicantes, tirando seus coelhos das cartolas quando necessário.

O primeiro jogo da semifinal foi em Minessota e pode ser considerado tranquilamente o jogo mais surreal da história da Liga.

Mal a partida começa e o Minessota já está vencendo por dois a zero e para complicar ainda mais a vida do time de NY o time perdeu seu goleiro titular em um choque com Allan Willey no primeiro gol.

Ainda no primeiro tempo o Kicks faz mais um e a partida vira 3 x 0 para o Minessota.

O Cosmos até reage com um gol de Chinaglia, mas Willey em uma noite inspirada faz quatro gols em menos de quinze minutos para deixar o placar em 7 x 1.

Chinaglia, que parecia ser o único a tentar alguma coisa pelo time de NY fez mais um, mas logo depois foi obrigado a assistir o time da casa fazer mais dois gols e fechar o placar num surpreendente 9 x 2.

Sim… MINESSOTA KICKS 9 X NY COSMOS 2.

Provavelmente um dos principais jogos da história da NASL e do Futebol nos Estados Unidos.

Quatro dias depois os times se enfrentariam no Giants Stadium.

Como citei no episódio anterior e é importante recordar – o regulamento não considerava o saldo de gols para definir a classificação, portanto Cosmos precisaria apenas de uma vitória simples para levar o jogo ao tempo extra.

Bogivecic e Chinaglia deram um show nos noventa minutos marcando dois gols cada e a vitória por 4 x 0 no tempo normal levou a partida para o tempo extra.

Por muito pouco Allan Willey, herói da goleada do primeiro jogo, não classificou o time de Minesota com uma cabeçada que o goleiro Jack Brand salvou de forma espetacular e com isso a vaga para final da Conferência foi para os Shoot-outs.

Os goleiros Jack Brand e Tino Lettieri brilharam na disputa, defendendo cobranças de grandes nomes como Begocevic, Allan Willey e Steve Hunt e forçando as cobranças alternadas.

Carlos Alberto Torres, o Capita, seria o responsável pela primeira cobrança alternada do time de NY e aquela seria a sua primeira vez em um Shoot-out.

O Capita ao invés de carregar a bola, a levanta como se estivesse jogando Futebol de Praia em Copacabana e no quique da bola dá um toque genial, com a uma classe que chega a ser difícil de descrever por áudio, encobre Tino Lettieri, colocando o Cosmos em vantagem e deixado a responsabilidade para o Capitão do Minessota – Alan Merrick – que sem nem três por cento da classe de Carlos Alberto, perde a chance e com isso o time de NY conquista a vaga para a final da Conferencia onde encararia o Portland Timbers.

Capita e o Shoot-Out mais lindo da história da NASL

Nas finais da Conferência Nacional o Cosmos superou o Portland vencendo os dois jogos com facilidade

Porém do outro lado o Fort Lauderdale de Gordon Banks e George Best encarou o Tampa Bay Rowdies de Rodney Marsh e Mirandinha fizeram dois jogaços.

  • No primeiro um emocionante 3 x 2 para o Fort Lauderdale.
  • Na volta, debaixo de uma tempestade, o Tampa Bay venceu por 3 x 1 no tempo normal e foi melhor nos Shoot-Outs, conquistando a vaga para o Soccer Bowl contra o seu maior rival.

Como citamos agora pouco, o Soccer Bowl 78’ seria disputado no Giants Stadium, ou seja, o time de NY jogaria praticamente em casa.

Para dificultar ainda mais a situação dos Rowdies, Rodney Marsh – craque do time e principal responsável em criar a rivalidade entre as duas equipes – sofreu uma contusão no tornozelo e ficaria fora da final.

Se de um lado o principal jogador estaria de fora, do outro o principal jogador vivia o seu auge.

Chinaglia chegou na final com 33 gols e 11 assistências na temporada e com a saída de Pelé assumiu o papel de liderança do elenco.

A sua amizade com Steve Ross, dono do time, dava a ele um poder que ultrapassava as quatro linhas, mas o atacante italiano justificava todas as suas regalias se dedicando muito em campo e isso acabava cativando a todos, até os mais experientes como Carlos Alberto e Franz Beckenbauer.

A prova de sua dedicação foi vista logo no começo do Soccer Bowl, quando mais de 74 mil pessoas – recorde até hoje em todas as competições do Soccer – viram uma atuação de gala do ataque liderado por ele em um primeiro tempo que terminou 2 x 0 – com um gol marcado por Chinaglia e outro por Dennis Tueart – que foi escolhido o MVP dos Playoffs.

O brasileiro Mirandinha até diminui na metade do segundo tempo, mas três minutos depois Tueart marca mais uma vez e resolve a partida, fazendo com que o Cosmos conquistasse o seu terceiro título da NASL se confirmando como a principal potência da Liga e o time a ser batido.


1979

Poucas coisas mudaram na Liga entre um ano e outro.

Nenhum time faliu, nenhuma nova franquia apareceu e apenas duas delas se mudaram:

  • O Colorado Caribous, que ficou famoso mundialmente graças ao seu maravilhoso uniforme com franjinhas dignas de festas juninas de colégio se mudou para Atlanta e fez ressurgir o Atlanta Chiefs
  • E o Oakland Stompers se tornou o Edmonton Drillers

Na temporada regular, ou para quem não acompanha os esportes americanos, as fases de grupos, poucas novidades.

O NY Cosmos que seguindo a tendência mundial do futebol da época adicionou ao elenco o holandês Johan Neeskens foi o melhor time.

Abaixo do Cosmos, outros times que já vinham de boas temporadas na Liga investiram pesado e conquistaram a vaga para os Playoffs…

  • Como o LA Aztecs que contratou o genial Johan Cruyff – que decidiu voltar a jogar depois de cometer erros graves em investimentos duvidosos e quase quebrar financeiramente
  • O Fort Lauderdale que já contava com Geroge Best e fechou com Gerd Muller e Teofilo Cubillas
  • E o Minessota Kicks, que assinou com o ótimo defensor sueco Bjorn Nordqvist.

Na luta pelos títulos de Conferência a boa fase da maioria dos times citados prevaleceram e apenas o Fort Lauderdale decepcionou ao ser eliminado pelo Chicago Sting do atacante alemão Karl-Heinz Granitza logo nas quartas de final.

Na Conferência Nacional, mesmo com um Johan Cruyff inspirado o LA Aztecs foi eliminado pelo Vancouver Whitecaps de Bob Lenarduzzi que na final encararia o NY Cosmos, que precisou do tempo extra contra o Tulsa Rougnecks para chegar à final.

Já na Conferência Americana o Tampa Bay Rowdies, que manteve a base vice-campeã do ano anterior superou o Philadelphia Fury – franquia administrada por Rick Wakeman, Peter Framptom e Paul Simon; grandes nomes do Rock Progressivo – na semifinal para encarar o surpreendente San Diego Sockers…

E aqui vem a mais uma Pitadinha…

O Santiago Sockers dos mexicanos Leonardo Cuellar e Hugo Sanchez.

Nas finais, confrontos gigantescos:

No primeiro jogo da Conferência Nacional o Vancouver Whitecaps venceu por 2 x 0 o NY Cosmos no Empire Stadium com dois gols de Trevor Whymark, mas o resultado nem de longe foi o principal assunto do jogo.

Após o apito final de um jogo muito disputado e cheio de provocações, entradas ríspidas e muita reclamação por parte do Cosmos – que reclamava de impedimento no segundo gol – Carlos Alberto discutiu com o bandeirinha no túnel que levava aos vestiários e foi colocado na súmula que o Capita teria cuspido no rosto do auxiliar.

Com isso, além do desfalque do defensor iraniano Adrianik Eskandarian, expulso durante o jogo, o time de NY não teria na segunda partida Carlos Alberto, que após o incidente foi expulso dos Playoffs da NASL.

Apenas três dias depois, no Giants Stadium com mais de 40 mil pessoas, o NY Cosmos começa de forma alucinante e Chinaglia, sempre ele, fez os dois gols do time da casa – que vai para o intervalo vencendo por 2 x 1, pois Trevor Whymark diminuiu para o Whitecaps.

No segundo tempo Whymark empatou o jogo e, se por um lado no mundo todo o 2 x 2 no tempo normal daria a vaga para o time canadense, por outro o regulamento da NASL não permitia empates e os times foram obrigados a ir para o tempo extra para definirem o vencedor e o Cosmos levou a melhor.

Como cada um dos times – pelo regulamento – teriam duas vitórias, seriam necessários novamente os Shoot-Outs para definiriam o futuro do NY Cosmos.

Surpreendentemente os jogadores mais jovens foram muito bem nas cobranças e quis o destino que duas grandes estrelas da Final da Copa do Mundo de 1966 falhassem em suas tentativas

  • Franz Beckenbauer pelo Cosmos
  • E Allan Ball pelo Whitecaps

Na última cobrança das cinco primeiras o time da casa poderia empatar e levar para as alternadas, porém o Português Seninho, mesmo convertendo a cobrança, demorou mais do que os cinco segundos permitidos e assim a vaga na final da liga ficou com o time canadense.

O adversário do Vancouver Whitecaps também saiu de um confronto quase idêntico.

O San Diego Sockers venceu em casa o primeiro jogo por 2 x 1 e três dias depois na partida disputada em Tampa com um público de mais de 33 mil pessoas o time da casa abriu o placar logo no início, mas tomou a virada ainda no primeiro tempo.

O atacante iugoslavo Ivan Grnja empatou o jogo e com isso a partida foi para tempo extra, onde mais uma vez Grnja marcou e deu a vitória para o time da casa e assim como a final da outra conferência a decisão vai para os Shoot-Outs e o goleiro Winston DuBose brilhou defendendo as três primeiras tentativas do San Diego e com isso o Tampa Bay mais uma vez chegaria à final da Liga Norte Americana.

A partida final entregou exatamente o que se esperava, muito equilíbrio.

  • O Whitecaps saiu na frente com o jogador mais decisivo dos Playoffs – Trevor Whymark aos 13 do primeiro tempo.
  • Dez minutos depois o holandês Jan Van der Veen empatou.

O jogo ficou muito travado até o fim do primeiro tempo e assim como no início do jogo o time canadense parte para cima e aos 15 minutos, sempre ele… TREVOR WHYMARK, depois de uma bela assistência de Allan Ball fez o segundo gol e deu o título a uma das franquias mais autênticas do Soccer – o segundo título de um canadense na North American Soccer League.

1980

O ano começa com a Liga e seus clubes dando sinais de estabilidade, pois pela primeira vez na história da competição não houve nenhuma equipe falindo e nenhuma franquia mudando de cidade.

Em paralelo a isso, assim como no início dos anos 70, uma nova onda de crescimento da prática do esporte foi vista por todo o país e isso refletiu também nos estádios, com a melhor média de público da história da NASL.

Mantendo a tendência de adicionar grandes nomes do futebol à Liga para atrair o interesse de novos espectadores, mais uma vez as franquias se mexeram e investiram pesado para deixarem a competição ainda mais estrelada:

  • Da Holanda vieram Wim Jensen para o Washington Diplomats, Rudi Krol para o Vancouver Whitecaps e Rob Resenbrink para o Portland Timbers.
  • Os paraguaios Roberto Cabañas e Julio Cesar Romero – ou como o torcedor do Fluminense prefere, Romerito – foram contratados pelo NY Cosmos, assim como o zagueiro brasileiro Oscar, que por problemas contratuais ficou apenas por três jogos.

Se por um lado grandes nomes vieram abrilhantar a Liga, duas lendas da competição penduraram a chuteira:

  • O “Maverick” Rodney Marsh, maior jogador da história do Tampa Bay Rowdies
  • E o zagueiro iugoslavo Werner Roth – sinônimo de liderança do NY Cosmos e capitão da conquista de 1978.

Com a bola rolando os destaques da temporada regular foram:

  • O Galático NY Cosmos de Carlos Alberto, Neeskens, Romerito e claro o dono do time Giorgio Chinaglia e o surpreendente Seattle Sounders na Conferência Nacional
  • E na Conferência Americana o Chicago Sting liderado por Karl Heinz Granitzka e o tradicionalíssimo Tampa Bay Rowdies do argentino Oscar Fabianni e do holandês Perry Van der Beck

Nos Playoffs apenas o Chicago decepcionou logo de início, sendo eliminado pelo San Diego da dupla mexicana Leandro Cuellar e Hugo Sanchez.

Já os outros avançaram para as semifinais das conferências.

Para contar as histórias das semifinais e finais das conferências desta vez começaremos pela Conferência Nacional,

  • Onde o Los Angeles Aztecs treinado por ninguém mais ninguém menos do que Rinus Michels superou o Seattle Sounders nos Shoot-Outs para conquistar a vaga e encarar o NY Cosmos…
  • Que depois de vencer o primeiro jogo foram atropelados pelo Dallas Tornado de Mike Stankovic e Wolfgang Raush nos 90 minutos na partida volta no Texas Stadium, mas surpreendentemente fez 3 x 0 no Tempo Extra com uma atuação de gala de Giorgio Chinaglia e Johan Neeskeens para ficar com a vaga.

Na final, a expectativa era de confrontos mais equilibrados.

Porém com o ataque do time de Nova York muito inspirado, nem o “Soccer Total” de Rinus Michels foi o suficiente e o principal time da Liga passou com facilidade vencendo os dois jogos e conquistando a vaga no Soccer Bowl que seria disputado no RFK Stadium em Washington.

Na outra Conferência, a Americana, o Fort Lauderdale de Teofillo Cubillas, Greg Villa e Marinho Chagas – sim o lateral e zagueiro que também jogou no Cosmos – superou o Edmonton Drillers de Henk Tem Cate – que conhecemos em tempos mais recentes como assistente de Frank Rijkaard no Barcelona – e com isso chegou a final.

Na outra partida o San Diego Sockers, goleou por 6 x 3 o Tampa Bay Rowdies no jogo de ida, mas perdeu por 6 x 0 nos 90 minutos na partida de volta disputada no Tampa Stadium com uma atuação de gala do meio campista canadense Wes McLeod.

No tempo extra, empate em 1 x 1 e com isso a partida foi para os Shoot-Outs, onde o goleiro do San Deigo, o alemão Volkmar Gross, brilhou e levou o time para a final.

San Diego e Fort Lauderdale fizeram dois jogaços na final da Conferência.

No primeiro jogo, disputado em San Diego uma partida extremamente equilibrada que seguia para o empate, mas que Teófilo Cubillas decidiu mostrar um pouco da sua arte e ao receber uma bola na ponta esquerda e ao ficar frente a frente com o goleiro e finalizou com muita classe para o Fort Lauderdale vencer fora de casa.

Na partida de volta em Fort Lauderdale, o time da casa liderado por Gerd Muller e Teófilo Cubillas até saiu na frente, mas o que viu depois durante os 90 minutos foi um show do visitante San Diego Sockers, principalmente de Hugo Sanchez, que fez três gols na vitória por 4 x 2 no tempo normal.

Porém no tempo extra, ficou claro que o gás do time tinha acabado e com muita tranquilidade o Fort Lauderdale Strikers fez 3 x 0 em trinta minutos levando o público de pouco mais de 18 mil pessoas no Lockhart Stadium a loucura, pois o time da Flórida estava na final para encarar o badalado time do NY Cosmos.

E no dia 21 de setembro, uma semana depois das finais de conferência os times se encontraram no RFK Stadium em Washington.

O primeiro tempo é um jogo muito travado e sem emoção, com o time da Flórida se preocupando apenas em se defender e o time de Nova Iorque sofrendo para achar espaços e criar chances.

A prova de que o jogo estava muito travado é esta Pitadinha que vem diretamente do Show do Intervalo do Canal de TV ABC, que reuniu na sua cabine ninguém mais ninguém menos do que o Rei Pelé – que comentava alguns jogos pela emissora – e Silvester Stallone – ator que vivia o auge com os filmes do lutador Rocky e que semanas antes da final estava com Pelé em Budapeste gravando cenas do clássico filme ESCAPE TO VICTORY, ou como conhecemos aqui, FUGA PARA A VITÓRIA.

Portanto, antes de seguirmos para o segundo tempo, temos que fazer uma pausa e ouvir, mesmo que em inglês, este momento inusitado.

O encontro entre Pelé e Stallone contando suas aventuras nas gravações de Fuga para a Vitória.

O Garanhão Italiano e o Rei do Futebol no SHOW DO INTERVALO da ABC

O segundo tempo inicia e logo aos dois minutos Romerito abre o placar para o NY Cosmos ao aproveitar um rebote de uma cobrança de falta de Chinaglia.

Com a vantagem no Placar o jogo fica mais aberto, Romerito e Beckenbauer começam a ter mais espaços para criar chances para Cabanãs e Chinaglia – e exatamente desta maneira, com os dois carregando a bola desde o campo de defesa que o Cosmos fez mais dois gols…

E os dois marcados pelo maior jogador da história do NY Cosmos – o atacante italiano Giorgio Chinaglia.

O Maior jogador da NASL brilhando em mais um SoccerBowl. Chinaglia jogou demais nos “gramados” norte-americanos

1981

Depois do gol vídeo dos gols da final, seguimos para a temporada 1981…

E aqui a realidade começa a bater na porta dos organizadores da Liga e dos donos das equipes.

Um dos sinais é a debandada da maioria das principais estrelas europeias – casos de Franz Beckenbauer, Gerd Muller, Alan Ball, Wim Jensen e Rudi Krol.

Além disso, depois de dois anos sem nenhuma equipe fechar as portas – Rochester Lancers, Houston Hurricane e Washington Diplomats – abandonaram a liga e quatro franquias mudaram de cidade – algo que, como citei algumas vezes durante a série, é comum nos esportes americanos, mas que acontecia num volume altíssimo na North American Soccer League.

A temporada regular não tem muita novidade.

As franquias mais tradicionais – Cosmos, Chicago, Vancouver e San Diego foram os destaques.

E apenas Vancouver não provou sua superioridade nas oitavas ao ser eliminado pelo Tampa Bay.

Nos playoffs das quartas – disputadas em melhor de três jogos – dois confrontos merecem destaque:

  • O clássico entre Cosmos e Tampa Bay aconteceu novamente e para o time de Nova York passar foram necessários três confrontos, sendo que dois deles foram decididos em Shoot-outs. O time de NY encararia o Fort Lauderdale de Teofilo Cubillas e Elias Figueroa.
  • No outro confronto de destaque, o Chicago Sting – sempre liderado pelo Alemão Karl-Heinz Granizta – venceu uma das novas franquias, o Montreal Manic – antigo Philadelphia – também em três jogos e seguiu para a semifinal onde encarou o San Diego Strikers de Leandro Cuellar e Kaz Denya.
  • No confronto entre Cosmos e Strikers – o time liderado por Chinaglia foi muito superior nos dois primeiros jogos e passou sem a necessidade do terceiro jogo.
  • Já o confronto entre Sockers e Stings foi bem mais equilibrado. O time de Chicago perdeu o primeiro jogo fora de casa, mas foi melhor nos outros dois confrontos disputados no Comiskey Park e conseguiu a vaga no Soccer Bowl.

Na final, disputada no Exibition Stadium em Toronto o que se viu em campo foi uma antítese da maioria dos jogos da Temporada.

Mesmo com um 0 x 0 nos 90 minutos, a partida teve um confronto muito aberto e com os dois goleiros alemães – Dieter Ferner do Chicago Sting e Hubert Birkenmeier do NY Cosmos – numa noite exageradamente feliz, pegando tudo, como por exemplo uma bicicleta de Giorgio Chinaglia no segundo tempo que provavelmente seria o gol mais lindo da história da NASL.

A boa atuação dos goleiros levou a partida para os Shoot-Outs e nas 5 primeiras cobranças os goleiros continuaram brilhando, pois apenas na terceira cobrança do Cosmos Bogicevic, ou como era chamado carinhosamente pelos narradores – Boggy – conseguiu converter a primeira cobrança para o time de NY.

Granitzka converteu a primeira para o time de Chicago. Ivan Bujlan, meia croata do Cosmos cobrou de maneira displicente e Ferner defendeu, empatando a disputa.

Rudy Glenn colocou o Stings na frente e deixou a responsabilidade para o zagueiro canadense e uma das estrelas da Liga Bob Iarusci empatar para o Cosmos, porém o camisa 3 do time de NY cobrou de maneira ridícula o Shoot-Out e com isso o Chicago Sting se tornou o campeão da temporada 1981.

Chicago Sting campeão da NASL

1982

Como podem perceber, passei de maneira mais rápida pela temporada de 1981.

O motivo é que enquanto a temporada acontecia, a continuação da Liga ficou em cheque.

Primeiro, a notícia de que alguns clubes, já no meio da temporada, anunciavam o encerramento das suas atividades.

Numa sequência: Atlanta, Washington, Minnesota, Los Angeles California, Calgari e surpreendentemente o Dallas Tornado – a única franquia existente desde o início da Liga – simplesmente desapareceram.

A segunda e considerada mais grave pelo Comissionário da Liga, Phill Woosman, foi a não renovação dos direitos de transmissão da Emissora ABC – que transmitia a Liga em Rede Nacional – e com isso fez com que os jogos fossem transmitidos apenas em emissoras locais ou em pequenos canais de TV a Cabo.

Com o desespero batendo na porta, a última cartada foi uma ideia arrojada, porém executada de uma maneira extremamente atrapalhada, que contaremos daqui a pouquinho

Como puderam agora pouco, a temporada inicia com sete times a menos do que a temporada anterior e os 14 times restantes – ou sobreviventes – foram divididos em três divisões.

O NY Cosmos do “quase dono do time” Giorgio Chinaglia é o melhor time da temporada regular, seguido dos bons Seattle Sounders de Peter Ward e do Fort Lauderdale Strikers de Teofilo Cubillas. 

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Enquanto isso, em paralelo com a Liga, em alguma tribuna de honra de um dos Estádios da Copa do Mundo disputada na Espanha, representantes do governo colombiano avisaram a FIFA que, por problemas financeiros, seria impossível sediar uma competição com 24 seleções e pediram que fosse diminuído para 16, algo impensável para o presidente da entidade, João Havelange, já que o aumento de seleções na competição era a sua cartada para barganhar por votos de federações de países menos tradicionais.

A FIFA naquele momento não desistiu da Colômbia, mas deixou claro que começaria a ouvir outros possíveis candidatos dos continentes Americanos dispostos a sediar a competição, o que acabou chamando a atenção de México, Estados Unidos, Canadá e até do Brasil – que logo desistiu da ideia.

Voltando para a Liga, para contarmos sobre a fase final, os times que se destacaram na temporada regular, assim como na temporada anterior, comprovaram o favoritismo ao chegarem todos nas semifinais.

O NY Cosmos venceu as duas primeiras partidas sobre o San Diego Sockers e com isso acabou com o sonho do time do Estado da California jogar o Soccer Bowl em seu estádio.

O adversário do Cosmos seria o Seattle Sounders, que em um playoff muito equilibrado superou o Fort Lauderdale Strikers de Cubillas e Branko Segota apenas no tempo extra do terceiro jogo e assim chegar à final.

E no dia 18 de setembro de 1982, 22 mil pessoas – o menor público para um Soccer Bowl desde 1975 – outro sinal da crise que a Liga vivia – NY Cosmos e Seattle Sounders disputaram a final.

O Sounders, liderado pelo atacante Peter Ward, mandou no começo primeiro tempo, mas desperdiçou muitas chances.

E fazer isso contra um time que tem Giorgio Chinaglia é um erro fatal e aos 30 minutos o “BISÃO ITALIANO” como era chamado desde os tempos de Lazio fez 1 x 0.

O jogo não muda.

O Seattle continua com as melhores chances e NY Cosmos treinado pelo brasileiro Julio Mazzei suporta até o final de jogo e fica com a taça de uma temporada que mais uma vez decepcionou no nível técnico.

Dias depois do fim da temporada, uma informação caiu como uma bomba nos corredores do escritório da NASL – dirigentes da liga e alguns dos donos de equipes pediram a saída de Phil Woosman, comissionário da Liga e considerado o responsável desde o início por toda a sua expansão.

De acordo com o grupo que decidiu pela sua saída o principal motivo foi a forma descontrolada de como a Liga foi crescendo, sem obedecer a critérios técnicos e financeiros.

Guardada as devidas proporções, a saída de Woosman foi quase como a saída de Steve Jobs da Apple – se consideramos a obsessão por fazer o projeto funcionar, a ambição e as horas investidas no projeto.

Semanas depois da saída de Woosman, outra notícia que mexeu com a alta cúpula da Liga.

No dia 25 de outubro de 1982 o presidente da Colômbia formalizou a desistência do país de sediar a Copa do Mundo de 1986.

De acordo com Belisário Betancourt a Colômbia passava por muitas dificuldades econômicas e não teria como atender todas as extravagancias da FIFA.

Com isso a NASL viu a oportunidade de os Estados Unidos sediarem o Mundial de 1986 crescer e liderou um projeto para apresentar à FIFA em parceira com a federação de futebol do país.

Vale lembrar que a relação da FIFA com a Federação Norte Americana e a NASL não era das melhores.

  • Com a federação havia uma decepção em relação a falta de um projeto concreto de evolução do esporte no país.
  • Com a NASL a relação era pior ainda. Pois a FIFA era contra a tal “americanização” do jogo feita pela liga que alterava ou criava regras para deixar o jogo mais familiar ao público. A pontuação diferente, a linha de impedimento e o shoot-out eram as principais adaptações que irritavam os velhinhos de Zurique.

Esta irritação vinha carregada de um certo desprezo.

A tentativa de mudar o esporte e a quantidade excessiva de estrangeiros na Liga sempre fez com que as maiores entidades do futebol não levassem tão a sério o que acontecia nos Estados Unidos e isso foi um dos obstáculos enfrentados pelo Comitê de candidatura liderado Por Clive Toye – que havia sido diretor geral do Cosmos e na época era diretor do Toronto Blizzard – e Gene Edwards – presidente da federação.

De acordo com relatos de quem estava nas reuniões, o Comitê de Candidatura americano era bem desorganizado, debatiam entre si durante as reuniões da FIFA e pouco convenciam a liderança da FIFA que, por mais que sempre gostasse de muito dinheiro, naquela época era mais conservadora nas escolhas e ainda buscava países com melhor estrutura e com mais cultura futebolística

Além disso, dentro do comitê era claro que havia muito mais desejo dos integrantes da Liga do que dos integrantes da Federação de que o país fosse escolhido. Houve até algumas pessoas com vínculo à federação que anos depois confessaram que a ideia deles era mais entender como funcionava o ambiente e os relacionamentos dentro da FIFA para sediar a competição num futuro próximo.

Com todos estes obstáculos pela frente e com um concorrente como o México, que havia sediado uma das maiores Copas do Mundo da história anos antes, os americanos praticamente se retiraram da disputa e a FIFA fez a escolha mais segura, entregando a competição aos mexicanos.

De lição, ficou a ideia de que com coisa séria não se brinca e ao se tratar da FIFA, mexer com algo tão precioso como o jogo de futebol pode custar muito caro.

E não há Rei do Futebol, Kaiser ou ganhador do Nobel da Paz que você chame para o seu time que resolva.

DOING THEIR BIDDING (PART II): How U.S. lost the 1986 World Cup bid, but  won the right to host the 1994 tournament - Front Row Soccer
A tentativa frustrada dos Americanos sediarem uma Copa do Mundo, algo que aconteceu apenas doze anos depois

1983

Mal começa o ano e três times anunciam que não seguirão na Liga. São elas:

  • O Edmonton Drillers
  • O Jacksonville Tea Man
  • E o tradicional Portland Timbers – mais um grande baque para os diretores da liga e claro, mais um sinal de que as coisas não iam nada bem.

Seguindo frequência anual das ideias mirabolantes, que talvez o menos otimista chamasse de desesperadora, a Federação, junto da NASL decidiu fazer da Seleção Nacional uma franquia para disputar a Liga. Ela se chamaria TEAM AMERICA e ficaria situada em Washington.

Na cabeça dos criadores da franquia era a chance de ter os melhores jogadores nascidos nos Estados Unidos jogando juntos durante toda a temporada e com isso criando um padrão de jogo para a seleção evoluir ao encarar seleções pelo mundo afora, principalmente as do próprio continente, pois de acordo com a FIFA, seria interessante que os Estados Unidos chegassem em uma Copa do Mundo o mais rápido possível, para ao menos justificar a realização de um torneio por lá.

Em teoria, a ideia parecia interessante. Porém, com a crise financeira tomando conta dos clubes, da liga e da federação as ofertas feitas para os jogadores americanos deixarem suas equipes para participarem do projeto não eram muito atraentes e com isso, poucos jogadores que faziam parte da seleção aceitaram a proposta de participar do projeto.

O resultado foi um vexame. O TEAM AMERICA venceu apenas dez dos seus trinta jogos na temporada e ficou em último na Divisão Sul, que teve o Tulsa Roughnecks como o melhor time.

Nas outras divisões; Leste e Oeste, os melhores times foram respectivamente o New York Cosmos de Chinaglia e Beckenbauer – que voltava da sua passagem pelo Hamburgo – e o Vancouver Whitecaps de Peter Bearsdley e Frans Thijssen – jogador holandês que passou por aqui no Pitadinha quando contamos a história do Ipswich Town Campeão da Copa da UEFA de 1981.

Nas quartas de final, diferente do que vinha acontecendo em temporadas anteriores, os principais times da Liga não confirmaram o favoritismo e foram superados.

  • O NY Cosmos perdeu os dois jogos para o Montreal Manic do Haitiano Franz Mathieu
  • O Chicago Sting foi surpreendido pelo Golden Bay Earthquakes de Leandro Cuellar e Igor Vrablic
  • No “clássico canadense” o Vancouer Whitecaps foi eliminado pelo Toronto Blizzard do atacante italiano Roberto Bettega.

Apenas o Tulsa Roughnecks dos brasileiros Zequinha e Val Fernandes seguiu para as semifinais ao eliminar o Fort Lauderdale Strikers de Teofilo Cubillas.

Nas semifinais entre os Underdogs – ou as surpresas da competição – como descreveu a revista KICK na época mais uma vez surpresa nos resultados:

  • Toronto surpreendeu novamente ao eliminar com facilidade o Goldey Bay sem sequer precisar da terceira partida do Playoff.
  • Já o Tulsa Roughnecks não teve a mesma facilidade. Perdeu o primeiro jogo para o Montreal Manic e precisou jogar muita bola para superar a equipe canadense. Principalmente no terceiro jogo, quando venceu por 3 x 0 jogando no Skelly Stadium.

E no dia primeiro de outubro de 1983, as duas equipes se enfrentaram no BC Place Stadium para surpreendentes 53 mil pagantes.

  • Depois de um primeiro tempo com poucas emoções o Tulsa voltou melhor para o segundo tempo e aos dez minutos numa cobrança de falta rasteira de Njego Pesa – que contou com a falha do goleiro sueco Jon Moller do Toronto – os Roughnecks saíram na frente.
  • Seis minutos depois, depois da cobrança de escanteio, mais uma vez o goleirão sueco falhou e o atacante inglês Ron Futcher fez o segundo do Tulsa e assim confirmou a taça para o time dos perfuradores de petróleo na final mais inesperada da história da NASL.
First NASL Game: Team America and the Beach Boys (June 12, 1983) | Bennet  Kelley's Clippings & More
TEAM AMERICA – a tentativa frustrada de fazer da Seleção uma força Continental nos anos 80.

1984

Mal o ano começou e surgiram notícias de mais três franquias encerando as atividades devido aos abusos nos investimentos sem retorno algum nos anos anteriores ou graças aos projetos mirabolantes que ao saírem do papel se provaram patéticos.

  • O Team America foi um deles. O projeto foi um fracasso de apenas uma temporada graças a todas as recusas dos selecionáveis, que preferiram ficar nas suas equipes ao invés de se aventurarem neste projeto sem fundamento.
  • Quer dizer, sem fundamento para nós, pois o Montreal Manic, que chegou a ser um sucesso na cidade, cogitou copiar a ideia e se transformar no TEAM CANADÁ, mas a falta de apoio e a negativa dos torcedores pegou tão mal que os investidores decidiram encerrar todo o projeto.
  • O terceiro a fechar as portas foi o Seattle Sounders, que viu os rendimentos caírem de forma absurda ao ponto de não conseguir pagar salários e a única solução foi abandonar a liga.

Com isso noves equipes iniciam a luta pela Taça num clima cheio de incertezas, principalmente porque grande parte dos clubes estavam com pendências salariais e até dívidas com aluguéis dos estádios onde mandavam os seus jogos.

Estas nove equipes foram divididas em duas divisões – LESTE e OESTE e apenas os dois primeiros colocados de cada uma seguiriam para as semifinais que seriam disputadas em melhor de três, assim como a final, que com isso acabou extinguindo o Soccer Bowl, final em jogo único que acontecia desde 1975.

Pela Divisão Oeste o San Diego Sockers do polonês Kaz Denya liderou durante toda a temporada regular seguido de perto pelo Vancouver Whitecaps de Frans Thjissen e Bob Lenarduzi.

Já na divisão Leste a briga pelas duas vagas foi mais acirrada.

Apenas na última rodada o Chicago Sting do alemão Karl-Heiz Granitza e o Toronto Blizzard do norte-irlandês Jimmy Nicholl conseguiram as vagas, dexando de fora o NY Cosmos, que vivia uma crise financeira avassaladora.

E aqui temos que fazer uma pausa na temporada para falarmos sobre a Crise financeira do Cosmos e trazer com ela uma Pitadinha Histórica.

Comercial do Game ET, considerado o pior jogo de Videogame de todos os tempos

Como falamos anteriormente, o time sensação da NASL era um dos tantos investimentos do Grupo Warner, liderado por Steve Ross.

No início dos anos 80, Steve Ross tinha como objetivo ter em seu time o diretor Steven Spielberg, que vivia seu auge no Estúdio Universal com o filme E.T.

Ross estava disposto a fazer o possível e o impossível para isso e a sua estratégia envolvia outra empresa do Grupo e um modelo totalmente novo de entretenimento – a Atari e mundo dos videogames.

Depois de uma longa negociação, Steve Ross decidiu pagar 25 milhões de dólares para o licenciamento do jogo ET – o Extraterrestre para o Atari. Para vocês terem uma ideia do quão alto era o valor, estas negociações na época geravam em torno de 500 mil a um milhão de dólares.

A demora na negociação fez com que o período de desenvolvimento do jogo fosse de apenas cinco semanas comprometendo toda a programação e edição do jogo.

E quando os cartuchos chegaram as lojas em dezembro de 1982 as vendas foram um fracasso.

O jogo recebeu diversas avaliações negativas, pois tinha uma baixa qualidade gráfica, jogabilidade confusa e cheio de problemas de programação, tornando-se automaticamente um gigante fracasso comercial, ao ponto de ser considerado por especialistas como um dos principais motivos da crise os Video Games que quase acabou com a indústria no ano de 1983.

Em 1984 a conta dos investimentos absurdos que foram feitos para o lançamento do jogo que foi um fracasso e a queda de venda dos consoles bateu na porta do grupo Warner de uma forma tão impactante que fez com que as lideranças do grupo olhassem para os outros investimentos que não estivessem dando lucro de uma forma muito mais criteriosa e o NY Cosmos estava entre eles.

Até houve algumas tentativas malucas de salvar a franquia – uma delas foi chamar Pelé para voltar a jogar sete anos depois dele encerrar a carreira, algo que Pelé, com muito bom senso não aceitou – e a única solução foi vender a franquia para outro grande ídolo do clube – Giorgio Chinaglia – que na época presidente da Lazio.

O jogador comprou grande parte do Cosmos, mas o ex-jogador deixou o controle do clube para seu empresário Peppe Pinton, que não tinha recursos para manter os principais jogadores para o próximo ano e assim que ficou fora dos playoffs, algo que não acontecia desde 1975, começou a dar sinais que não participaria da Liga no ano seguinte.

E foi assim, diante desta bomba que seria a saída do principal time da Liga que aconteceram as semifinais.

  • Chicago Sting e Vancouver Whitecaps fizeram semifinais emocionantes, com o time de Granitza, Manny Rojas e Pato Margetic conseguindo a vaga apenas no terceiro jogo
  • Na outra semifinal o Toronto Blizzard teve mais facilidade e eliminou o San Diego Sockers em apenas dois jogos e chegou à final.

Enquanto as semifinais aconteciam, outra bomba caiu sobre a cabeça de Howard Samuels, novo presidente da NASL: quatro equipes da liga foram aceitas pela MISL – a Major Indoor Soccer League – e com isso elas não participariam da Liga tradicional e nem da liga Indoor organizada pela NASL durante o inverno.

Uma destas equipes era o Chicago Sting, que foi para a final já sabendo que não disputaria a próxima temporada caso ainda existisse a Liga.

O clima de crise, dúvidas e de falta de uma luz de esperança sobre a liga se vê nas arquibancadas das finais.

  • Apenas oito mil pessoas foram ao Comiskey Park em Chicago para ver os jogadores latinos do Sting – o chileno Rojas e o argentino Magertic – marcarem na vitória do time da casa por 2 x 1.
  • No Canadá o público de 16 mil pessoas bem que tentou, mas não foi o suficiente para levar o Blizzard a uma vitória. O time da casa saiu perdendo por 2 x 0, chegou a empatar a partida, mas no finzinho brilhou mais uma vez a estrela de Pato Magertic, que fez o terceiro dos visitantes e o Chicago Sting se tornava campeão da NASL pela segunda vez.
O último suspiro. A final da Temporada 1984 entre Chicago Sting e Toronto Blizzard

NASL: O FIM DE UM SONHO QUE INSPIROU UMA REALIDADE

Logo depois da final, com os bastidores bem movimentados na luta para que a Liga tivesse continuidade no ano seguinte, outra notícia devastadora: Howard Samuels – que substituíra Phil Woosman como principal nome entre os dirigentes de North American Soccer League – morre devido a um ataque cardíaco fulminante aos 64 anos. 

A Liga reage rapidamente e nomeia Clive Toye, nome importante da Liga desde a sua fundação e que na época era CEO do Toronto Blizzard – como o seu presiente interino.

Não havia nome melhor para este momento de desespero. Toye era influente entre os donos dos times, era respeitado pela sua história e um dos mais dedicados em fazer do futebol um esporte popular no Estados Unidos.

O novo “nome da NASL” apresenta um documento de 46 páginas com um plano de salvar a liga, propondo uma temporada com seis equipes – com plano de uma nova expansão em dez anos – e um torneio eliminatório com 16 jogos envolvendo também equipes mexicanas.

Os “quatro sobreviventes” da temporada seguinte apoiaram a ideia, com isso Toye foi atrás de mais duas franquias para com isso fechar o plano para a temporada de 1985.

Com os primeiros meses do ano passando, dois dos quatro sobreviventes – Minnesota e Toronto – desistiram e formalmente encerraram suas atividades, sobrando apenas um Cosmos quebrado e um Vancouver Whitecaps já com olhos voltados para a Liga Indoor e a Liga Canadense.

Os Líderes da NASL então, já começaram a olhar para o ano seguinte, sonhando com uma possível classificação dos Estados Unidos para o Copa do México, que seria um provável impulso para o esporte no país.

Na CONCACAF CHAMPIONSHIP – que também serviu como Eliminatórias para a Copa de 1986 – os americanos, otimistas por caírem num grupo com Trinidad e Tobago e Costa Rica – começaram muito bem, vencendo os dois jogos contra Trinidad e Tobago e conseguindo um empate heroico contra os Costarriquenhos fora de casa, deixando a decisão pela única vaga na fase final para o confronto entre as duas seleções na Califórnia cinco dias depois.

Os americanos, liderados pelo zagueiro e capitão Paul Caligiuri, começaram bem melhores no jogo, mas aos 35 minutos, depois de uma saída em falso do goleiro Arnie Mausser Evaristo Conrado – um dos maiores jogadores da história do Deportivo Saprissa – fez o gol da vitória dos “Ticos” e com isso o sonho dos Estados Unidos de chegar novamente a uma copa acabou.

A derrota acabou também com o sonho da NASL.

Com o futebol indoor – que conhecemos aqui como Showbol – ganhando cada vez mais força e novas ligas regionais surgindo, uma liga nacional com altos custos e poucos investimentos se tornou algo totalmente sem sentido.

A oportunidade de uma nova liga profissional surgiria apenas quando os Americanos novamente se candidataram a sediar uma Copa do Mundo e ainda assim, surgiu apenas por ser uma contrapartida exigida pela FIFA para que o evento fosse sediado por lá em 1994.

A forma decadente e até triste como a liga se encerra, faz com que até hoje ela tenha uma imagem de algo mal-feito, artificial e caricato, apagando tudo de inovador e arrojado e corajoso que foi feito durante as suas 17 temporadas e que ficou como legado para a elite do futebol.

  • Foi por lá que surgiram as novas formas de se negociar com emissoras de televisão.
  • Foram os americanos que montaram os grandes esquadrões globais com jogadores de diversas partes do mundo para atrair novos torcedores.
  • As regras malucas de pontuação, impedimento e shoot-out, por mais que tenham causado um atrito com os velhinhos da International Board, também colocou uma pulga atrás da orelha de todos, que mesmo não admitindo, olharam para estas loucuras para mudarem algumas regras do jogo nas décadas seguintes.
  • Os nomes nas camisas, que só vimos em uma grande competição mundial em 1994, também foi visto pela primeira vez no futebol por lá.
  • E até o showbol – que por aqui vimos pela primeira vez no FIFA 97 e que depois fez sucesso com os ex-jogadores desfilando seu talento nas tardes de domingo – foi praticado a exaustão na lacuna entre a North American Soccer League e o primeiro ano de Major League Soccer.

Ao pesquisar com detalhes este “pedaço de mundo paralelo do futebol”, fica claro que a North American Soccer League é um dos episódios mais deliciosos e cheio de fatos interessantes da história do futebol, se juntando a temas como a Liga Pirata da Colômbia ou ao período do futebol mundial pós-segunda guerra mundial.

Fica aqui todo o respeito e admiração aos que tentaram fazer de um esporte mundial cheio de conservadorismo um dos esportes americanos; e que mesmo que não tenha dado certo, mostrou para o mundo todo, com seus erros e acertos, como seria o futebol com o fim das fronteiras e muitos investidores, aventureiros ou não.

Pois cada bola que rola num gramado da MLS, cada recordação que você tiver da camisa “calça jeans” usada por Lalas e cia. Na Copa de 1994 ou cada arrancada de Pulisic na Premier League tem um PITADINHA – com o perdão do trocadilho – da North American Soccer League, a primeira Liga das Estrelas do Futebol Mundial.

CONSERVADORES PELA PRÓPRIA NATUREZA

Sim, somos conservadores.

Com o tempo podemos até buscar mais conhecimento e com isso mudarmos o nosso ponto de vista sobre diversas coisas, mas no íntimo somos bem conservadores.

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Caso esteja decepcionado ou revoltado com o fato, tenho ao menos uma boa notícia para você: A culpa não é totalmente tua.

Volte algumas casas no “Jogo da Vida” e tente relembrar alguns comportamentos de pessoas mais velhas do que você e que você admirava na infância. Logo perceberá que diversas delas seriam questionadas, ou melhor, canceladas quase que de maneira instantânea nos dias de hoje.

Agora avance algumas casas e pare bem no momento de transição entre a adolescência e a vida adulta e me diga: Quantas vezes ouviu dos teus pais, parentes ou vizinhos próximos sugeriram que você deveria estudar para um concurso público?

Eu pelo menos ouvi muitas vezes. Cheguei a fazer alguns. Resultados péssimos.

Mesmo assim eu continuava ouvindo que aquilo era uma grande chance de ESTABILIDADE e SEGURANÇA e de que a tentativa de uma carreira profissional seria algo arriscado.

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E exatamente neste ponto que eu quero chegar. No medo, imposto de forma consciente ou inconsciente na nossa sociedade, de corrermos riscos.

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Aqui, mais uma vez, a culpa provavelmente nem são destes parentes mais próximos.
Mas talvez dos antepassados.

Pois desde 1500, quando invadiram essa terra que chamamos de Brasil, vem se explorando cada pedaço e dando como retorno apenas problemas sanitários e divisão social e econômica que, graças ao resultado do genocídio e da escravidão mais longa do planeta, faz com que nosso país tenha uma diferença sócio racial que se assemelhe ao Apartheid e fez com que o povo, desde sempre tivesse dois caminhos para seguir:

O mais seguro, seguir as regras impostas pelos exploradores. Trabalhar muito e com isso garantir o mínimo sustento dele e dos próximos.

A outra opção seria desobedecer às regras e correr riscos. Desafiar, confrontar, questionar e até fugir.

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A primeira opção, caso seguida à risca garante a tão sonhada ESTABILIDADE e SEGURANÇA. Portanto, depois de séculos de sofrimento, foi a escolha natural da grande maioria.

A segunda opção, bem mais complexa, exige coragem, criatividade e muito conhecimento. Muitos escolheram e as poucas vitórias que o povo pobre tem neste país, devem-se muito a eles.

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Porém, estes caminhos tão opostos em um país que vive em um círculo vicioso de exploração e negação de oportunidades para grande parte da sua população há mais de 5 séculos, só poderíamos ter como resultado uma sequência de gerações de um povo que simplesmente se acostumou com o fato de que tentar o novo é um risco, que aceitar as exigências do sistema é uma forma de sobrevivência, que seria mais fácil se adequar a falsas tradições e com isso o que temos hoje é um povo que criou uma rejeição sobre o novo. Sobre o desconhecido.

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Junte isso com um sistema que seja qual for sistema de governo, sempre se esforçou para que o seu povo não tivesse acesso ao conhecimento e pronto: Temos um país conservador e um povo inconscientemente acostumado a produzir e receber apenas o necessário para continuar vivo.

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Agora transfira isso para o Futebol. Para este momento de inércia com “Pitadas de Negacionismo” que estamos vivendo na cultura do jogo e veja se ele não se encaixa perfeitamente neste sistema tradicional, ultrapassado e que rejeita conhecimento.

Ou seja, neste sistema conservador.

E quando eu falo futebol eu não estou me referindo apenas ao campo e bola. Eu realmente falo de todo o sistema do esporte. De quem comanda, de quem treina, de quem joga, de quem transmite e de quem torce.

Veja como todo este conservadorismo do nosso futebol tem como base a rejeição pelo novo e a aceitação da mediocridade.

  • Não se arrisca um projeto administrativo diferente do tradicional sistema de clube social e, com exceção ao time energizado por uma bebida que dá asas, até o sistema de Clube Empresa daqui tem os vícios e os pensamentos de empresas ultrapassadas.
  • Treinadores então nem se fala. Estamos neste carrossel de nomes transitando entre os principais clubes do Brasil há décadas, aceitando uma entrega pobre de conceitos e de espetáculos. E, assim como passamos a escolher vacinas de acordo com sua procedência, usamos do mesmo conservadorismo xenofóbico para decidir qual treinador estrangeiro vamos gostar ou odiar.
  • O que joga é o total reflexo da falta de cultura e da alienação da parcela mais jovem da sociedade.
    Com o futebol ficando cada vez mais científico e cada vez menos lúdico, nossa “formação de atleta” mais parece criar “soldados politicamente alienados” prontos para serem sempre um “atleta nota seis” e partirem à caminho do exterior, para aí sim passarem por um período de refinamento cultural e evoluírem.
  • Já quem transmite não comunica, não informa e não educa. Transformou o jogo num festival de publicidade, seguido de comentários vagos e notas de um Fantasy Game.
    E faz pior ainda quando a bola não rola. Pois o medo de arriscar aliado a pobreza editorial e a busca por visualizações transformou debates futebolísticos em terríveis shows de stand-up. Onde o que vale mais é o comentário sensacionalista ou print da tela se tornarem “meme” do que realmente o conteúdo do debate.

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E claro, tudo isso cai na base da pirâmide, no torcedor.

Que não questiona o sistema administrativo corrupto do futebol pelo simples fato de ter se acostumado a viver em um sistema corrupto desde sempre.

Que abraçado a um saudosismo seletivo (obra do conservadorismo), acredita que tudo de novo não serve e que “no tempo dele que era bom”.

Que ao buscar onde se informar, é metralhado com sensacionalismo, gritaria, piadas e pouco conteúdo.

E que com isso, também passa a acreditar que qualquer tentativa de algo novo no seu clube do coração é um risco desnecessário e que para dar certo o seu time precisa mesmo é “voltar às raízes”, seja lá o que isso exatamente signifique.

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Infelizmente, ao olharmos para este círculo vicioso de manipulação e conservadorismo barato que vivemos, o futuro não nos parece dar sinais de mudanças no curto prazo.

No futebol e principalmente fora dele.

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Ao invés de quebrarmos as barreiras do conservadorismo, estamos subindo muros baseados em conexões sentimentais com o passado e apenas assistindo e admirando por cima destes muros a troca de conhecimentos e a busca por evolução que acontecem do outro lado.

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Para este que escreve, a única solução é buscar e, principalmente, compartilhar conhecimentos e pontos de vistas.
Trocar ideias e não simplesmente acreditar piamente apenas uma, rejeitando ou deixando de se informar sobre ideias diferentes.

O conhecimento, mesmo em um assunto menos importante como o futebol, se faz necessário.

Amamos tanto este esporte que a única forma de mantermos a chama desta paixão acesa é sendo um pouco mais racionais, para exigirmos uma melhoria na forma como ele é apresentado para todos nós.

Portanto, fica aqui a sugestão: Se ouviu um bom Podcast, leu um bom livro, viu um ótimo perfil no Twitter ou em qualquer outra rede social que trata a nossa paixão da forma como ela merece; compartilhe com amigos que desfrutam do mesmo sentimento pelo futebol que você tem.

Será muito bom para todos. Será muito bom para o futebol.

QUANDO DESCOBRI QUE ERA AMOR

Balls - Leather Soccer Ball - Trainers4Me

17 de junho de 1994.

Se você era uma criança apaixonada por futebol nesta época, sabe bem que a Copa do Mundo já havia começado semanas atrás, na incessante busca por figurinhas para completar o seu belo álbum de figurinhas NÃO autocolantes.

Comigo foi bem parecido, mas um pouco diferente. Pois foi neste ano que descobri os GUIA DE COPA DO MUNDO da PLACAR, com esquemas táticos, textos e tabela no meio para preencher.

Ou seja, para nós a Copa já havia começado.

Porém, foi a tarde de 17 de junho de 1994, logo após aula de Língua Portuguesa, que tudo mudou na minha vida.

Eu não tinha noção de que a cantora que perdeu o pênalti no Show de abertura era a Diana Ross e muito menos que estava um calor impróprio para uma partida de futebol. Eu só queria saber de ver novamente Lothar Matthaus e Jurgen Klismann vestindo a bela camisa da Alemanha contra a Bolívia de “El Diablo” Etcheverry e Erwin “Platini” Sanchez que havia vencido o Brasil um ano antes.

O jogo acaba e lá estou eu com a minha caneta anotando o resultado e seguindo a caminho do quintal para montar o Estrelão e simular o jogo que acabara de assistir.

Sim, eu me orgulhava na época de ter as 24 seleções da Copa em times de botão.

Eu não vou ficar aqui falando de todas as memórias que tenho daquela Copa do Mundo, mas lembrarei alguns detalhes que provavelmente aquecerão o coração de você leitor, provavelmente tão apaixonado por futebol como eu.

Me recordo de ficar feliz que Eric Wynalda ter marcado no jogo contra a Suiça, confirmando a previsão do Guia da PLACAR de que ele era o melhor jogador da seleção Americana.

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Eu lembro muito bem de Galvão Bueno encher o saco dizendo “que era a hora do gol” até Romário marcar contra a Rússia e ele gritar “COMO EU DIZIA” durante a narração do gol.

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Como esquecer o frio desgraçado que fazia na estreia da Argentina contra a Grécia e de como todos nós brasileiros ficamos preocupados com a qualidade daquela seleção.

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Ou de assistir sozinho a primeira partida da Nigéria e a linda comemoração de Rashid Yekini chorando enquanto agarra as redes da meta de Mihaylov.

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E a bizarrice que era tentar entender o Pontiac Stadium de Detroit? Estádio coberto em que todos nós descobrimos quem era o grandalhão Kenneth Anderson e sua comemoração de apontar os dedos indicativos para frente ao marcar, como fez ao encobrir Taffarel.

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Onde você estava na tarde fria de sábado em que Argentina e Nigéria se enfrentaram e precisou do replay para entender a cobrança de falta rápida de Maradona para Caniggia chapar a bola no ángulo?

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Vai dizer que não lembra do chute cruzado de Klismann para vencer o goleirão Preud’Homme, em uma finalização que derruba as garrafinhas do ótimo goleiro belga.

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E um dia depois, no fim de domingão, vai dizer que não secou com toda sua família a forte Argentina e festejou a eliminação dos nossos rivais para uma Romênia que nos encantava desde a primeira fase?

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Junto da família, num belo almoço de domingo, vimos Stoichkov e o carequinha Lechkov surpreenderem a Alemanha em menos de cinco minutos.

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Sofremos dias depois com Galvão Bueno implorando para o Brasil parar de cruzar bolas na área e ver Romário, o baixinho, marcar um gol de cabeça no fanfarrão Thomas Ravelli.

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E sejamos justos. Não vimos muito a Itália na primeira fase pelo simples fato de nem imaginarmos que a equipe de Franco Baresi e Roberto Baggio pudesse ir tão longe.

Quando nos atentamos para a Itália pela primeira vez, foi quando Tassoti desferiu uma bela cotovelada em Luis Enrique nas oitavas.

Depois até tentamos torcer muito para a Nigéria, que assim como Camarões em 1990, perdeu gols demais contra um rival mais tradicional e o que vimos foi Roberto Baggio mostrar ao mundo que seria capaz de levar aquele time mais longe.

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Um mês depois daquele dia 17 de junho, os mesmos finalistas da Copa de 70 e também presentes na tragédia de Sarriá estavam em campo.

Para uma criança desde cedo apaixonada por história por futebol, nada poderia ser mais bonito. As duas seleções tricampeãs do mundo num duelo final.

Eu nem lembro de sofrer com o jogo, mas lembro que tudo nele me encantava, principalmente Márcio Santos e Demetrio Albertini, que na mente de uma criança que imaginava já saber analisar futebol fizeram uma partida impecável.

Na cabeça da mesma criança, ver o ídolo Viola entrar em campo trouxe uma emoção para a prorrogação que simplesmente apagou qualquer tipo de nervosismo.

“Parte pra cima Viola, não toca para o Romário. Chuta você!!!”

Eu lembro pouco dos pênaltis. Só lembro que depois eu era o Márcio Santos no “Três X Três Fora” que no meu bairro em São Bernardo – Jordanópolis – sei lá por qual razão, se chamava “Gol de Classe”.

Hoje, 27 anos depois, eu sei que foi uma Copa do Mundo disputada num calor insuportável, com sedes distantes e horários de jogos malucos para atender transmissões de televisão.

Mas estes trinta dias do ano de 1994 mudaram minha vida para sempre. E se hoje sou tão apaixonado por futebol é porque acompanhei de perto todas estas loucuras do futebol no verão americano.

O Futebol é a Política

João Havelange, ex-presidente da Fifa que tornou futebol negócio de bilhões  | Acervo
Emilio Garrastazu Medici e João Havelange com a Taça Jules Rimet do Tri

O que você vai ler abaixo são fatos. Quase zero opinião, apenas fatos.

Se trata de um documento que compila de forma resumida perfis dos Presidentes da CBD – Confederação Brasileira de Desportos – e da CBF – Confederação Brasileira de Futebol – adicionando breves relações deles com a Política, com a burguesia e/ou com a corrupção.

Compartilhe com aquele seu amigo que acha que Futebol e Política não se discutem ou que são coisas que não se misturam.

Ele vai gostar.

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ARNALDO GUINLE: Foi presidente da CBD durante os anos de 1916 e 1920.
Foi um dos grandes nomes da Burguesia Carioca na época, com muita influência na política da cidade.

Foi presidente do Fluminense e um dos responsáveis pela construção do estádio das laranjeiras, onde a Seleção fez o seu primeiro jogo.

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JOSÉ EDUARDO MACEDO SOARES: Foi presidente da CBD entre os anos de 1921 e 1922. Senador no Rio de Janeiro. Aceitou a ordem de Epitácio Pessoa, Presidente do Brasil na época, de convocar apenas jogadores brancos para o Sul-Americano de 1921.

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RENATO PACHECO: Foi presidente da CBD entre os anos de 1927 e 1933.
Formou uma comissão técnica apenas com cariocas para o Mundial de 1930 no Uruguai, o que revoltou os clubes paulistas que decidiram não fornecer nenhum jogador para o torneio.

Foi responsável por mais um caso de Racismo na Seleção ao ser contra a convocação de Leônidas da Silva e de outros jogadores pretos para um amistoso contra o Uruguai por achar que estes jogadores “dessem algum vexame em terras estrangeiras”

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RIVADÁVIA CORRÊA MEYER: Foi presidente da CBD entre os anos de 1943 e 1955.
Ele foi um dos responsáveis por tirar a Seleção Brasileira da concentração na Casa dos Arcos e levá-los ao São Januário a pedido de Políticos que gostariam de desfrutar do momento com os atletas por pura e simples promoção política.

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JOÃO HAVELANGE: Foi presidente da CBD entre os anos de 1958 e 1975.
Amigo íntimo de todos os nomes do alto escalão da Ditadura Militar no Brasil, como Arthur Costa e Silva e Garrastazu Médici. Teve apoio financeiro e de relações dos Governos Militares do país para se candidatar a presidente da FIFA.

Ficarei apenas com este breve relado sobre Havelange. Ele merece (ou não) um texto apenas para ele quando o assunto é envolvimento político.

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HELENO DE BARROS NUNES: Foi presidente da CBD entre os anos de 1975 e 1979, período em que também era Presidente do Partido Político ARENA. Assumiu o cargo como uma forma de silenciar o irmão Adalberto de Barros Nunes – almirante da Marinha Brasileira que estava presente na reunião que instituiu o AI-5 – e que na época se opunha de maneira firme contra os altos gastos da Confederação.

Ficou conhecido por preencher todos os cargos da CBD com militares: Coronel Tinoco Marques tornou-se chefe de delegação, o tenente Osvaldo Costa Lobo assumiu a vaga de assessor da Seleção e o Major Kléber Camerino tornou-se Secretário da delegação.

Foi na sua presidência que o atacante Reinaldo recebeu a “sugestão” de não comemorar com o punho cerrado caso fizesse gols na Copa do Mundo. Reinaldo desobedeceu a ordem no jogo contra a Suécia e depois disso teve poucas chances no time.

E claro, ficou famoso por rechear o Campeonato Brasileiro com quase 100 times, o que lhe rendeu a famosa frase “Onde a ARENA vai mal, mais um no Nacional”.

GIULITE COUTINHO: Foi presidente dos primeiros anos de CBF, entre 1979 e 1986.
Não tinha relações diretas com a Ditadura.

Ficou conhecido por iniciar uma gestão mais “empreendedora” na CBF e por ser oposição a João Havelange e sua turma.

Foi na sua administração que o Brasil tentou adicionar um ramo de café no Escudo da Seleção, algo que foi rapidamente rejeitado por ser considerado como uma publicidade do Instituto Brasileiro do Café.

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OCTÁVIO PINTO GUIMARÃES: Foi presidente da CBF entre os anos de 1986 e 1989.
Eleito numa manobra política de Nabi Abi Chedid, que imaginava que com isso poderia controlar a CBF. O que se viu foi Octávio trainindo Nabi e seguindo como presidente de forma solitária, vendo a Confederação ruir aos poucos.

Foi através dele que veio o anúncio de que a CBF não teria condições de organizar o Campeonato Brasileiro de 1987, decisão que errou a criação do Clube dos 13 e da Copa União.

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RICARDO TEIXEIRA: Foi presidente da CBF entre os anos de 1989 e 2012.
Genro de João Havelange, rei do Nepotismo e da escancarada politização das Federações Estaduais.

Fez tanta coisa errada que conseguiu com que houvesse uma CPI para investigar o seu mandato e provou ter tanto poder que conseguiu interromper uma CPMI para investigaria a parceria Corinthians/MSI por medo que que a Comissão Parlamentar interferisse na escolha da sede para a Copa do Mundo de 2014.

Renunciou do cargo de Presidente da CBF em 2012 e em 2019 foi banido do futebol profissional após investigações de corrupção na FIFA.

JOSÉ MARIA MARIN: Foi presidente da CBF entre os anos de 2012 e 2015, assumindo por ser o sucessor direto de Teixeira, afastado pelo cargo.

No auge da Ditadura Militar foi mais um dos filiados a ARENA – o partido político da Ditadura Militar nos anos 60 e 70. Neste período era visto pela cidade de São Paulo com Sérgio Fleury o “Príncipe da Dor”, responsável por inquéritos e que operava uma rede de cativeiros onde presos políticos eram torturados dias a fio.

Foi, junto de Wadih Helu – ex-presidente do Corinthians, um dos vereadores que numa assembleia em 1975 questionaram a falta de cobertura do jornalismo da TV Cultura, na época liderado por Wladimir Herzog, em obras feitas pelo governo. Atitude que foi considerada como uma luz verde para Sergio Fleury e sua turma assassinarem o jornalista.

Foi preso na Suíça em investigação de corrupção na FIFA junto de seis outros executivos em maio de 2015.

MARCO POLO DEL NERO: Foi presidente da CBF entre os anos de 2015 e 2017.
Outro filhote do Partido ARENA. Marco Polo era militante do partido e fez diversos discursos para apoiadores que também incentivaram a morte de Herzog.

Comandou uma facção de extrema direita dentro da Universidade Mackenzie que, de acordo com seu depoimento a Polícia Federal em 2012 era um grupo que lutava pela democracia.
Ou seja, mentiu.

Em dezembro de 2017 foi banido das atividades relacionadas ao futebol pelo Comitê de Ética da FIFA.

ANTÔNO CARLOS NUNES: Foi presidente da CBF entre 2017 e 2019, substituindo Del Nero afastado por corrupção e acaba de assumir depois do afastamento de Rogério Caboclo.

Foi coronel da Aeronáutica e Comandante da Polícia Militar do Pará. Home de confiança da Ditadura, recebe um gordo salário como anistiado por ser “vítima de ato de execução de motivação pública”.

Coronel Nunes decidiu não seguir as ordens dos seus patrões e votou errado na escolha da sede para a Copa do Mundo de 2026. Decidiu votar em Marrocos ao invés de escolher a chapa feita por Canadá, Estados Unidos e México. Decidiu votar em Marrocos pois os outros países já haviam sediado uma Copa do Mundo.

ROGÉRIO CABLOCO: Presidente afastado da CBF. Está no cargo desde 2019.

Assim como Havelange, se agarrou num governo liderado por Militares, mas nem de longe tem o poder de manipulação e a rede de influências do “Homem que nunca Transpira” como disse uma vez Galvão Bueno.

No desespero por perder o controle do cargo, decidiu trazer a Copa América para o Brasil junto do atual Presidente Jair Bolsonaro e assim se manter como Presidente.

Em paralelo a esta parceria nebulosa o nojento escândalo de assédio veio à tona e com isso foi forçado a pedir licença de 30 dias do cargo.

Um Conto sobre Kanté

It wasn't magic that got N'Golo Kanté to the very top - We Ain't Got No  History

Há quatro anos, assim que o Chelsea confirmou o título da Premier League, eu escrevi um texto sobre N’golo Kanté e a sua importância para a conquista histórica do Leicester de Claudio Ranieri e a conquista do Chelsea de Antonio Conti. Naquele texto de um blog antigo finalizei dizendo que teríamos o prazer de vê-lo na Copa do Mundo. Torneio em que terminou como campeão.

Entre aquele texto e este que escrevo um dia depois do Chelsea conquistar a Champions League Kanté não levantou uma taça apenas na temporada 19/20 e até na temporada em que teve mais dificuldades em relação ao sistema tático – a temporada 18/19 com Maurizio Sarri – ele conseguiu aprimorar a sua chegada ao ataque, um atributo que não era citado ao se referir a ele em seus primeiros anos de carreira.

Nestes mesmos anos de início de careira no Caen ou nas primeiras temporadas no futebol inglês o que se via em campo era um incansável Kanté correndo e combatendo a tudo e a todos no meio campo, chegando ao impressionante número de 150 desarmes em uma temporada.

Ao assistir o meia francês nos dias de hoje, fica claro que ele parece conhecer os atalhos da sua função, ocupando espaço com posicionamento perfeito, fechando linhas de passe e impedindo movimentações dos grandes nomes dos times adversários dando pequenos trotes ou movimentações laterais, algo que ficou claro ontem com Kevin De Bruyne, que pegou pouquíssimo na bola quando tentava cair para o lado esquerdo do campo.

Por outro lado, a velocidade que víamos na marcação nos anos anteriores agora é a sua maior aliada quando o seu time está com a bola. A velocidade de movimentação e a inteligência de ocupar o espaço certo faz da versão atual de N’golo Kanté um jogador quase completo, que alia entendimento de jogo com velocidade de uma maneira muito além da maioria.

Tudo isso faz de Kanté um craque. Um jogador raro e que deve ser tratado como tal.

A forma explícita em que a sua importância se evidenciou nesta temporada e o maior entendimento do espectador em relação ao jogo (sim, o espectador médio de futebol está entendendo cada vez mais sobre o jogo) jogou uma luz sobre um questionamento interessante:

Kanté merece o prêmio de melhor jogador da temporada?

Na opinião de quem escreve, SIM. Pela bola e pelo significado.

E nem me refiro a sua linda história de superação que todos os comentaristas contam assim que Kanté rouba uma bola nos primeiros minutos de jogo, mas na forma em que este jogador se faz onipresente em campo de uma forma simples e objetiva, que ajuda o coletivo com tanto brilhantismo que acaba chamando a atenção individualmente.

A premiação de N’golo Kanté simboliza a vontade de vencer. O auge individual de um jogador que entrega para o time algo especial. O líder que não precisa da faixa de capitão, não precisa de violência e muito menos de comportamento polêmico para todos notarem que ele comanda o jogo.

N’golo Kanté “apenas” joga.

E como jogador, HOJE não há ninguém melhor que ele para fazer de um time campeão.

Quem ama cuida.

Entre o fim de domingo e o começo da segunda depois do clássico que pouco valia além da rivalidade entre Corinthians e São Paulo a principal Torcida Organizada do Tricolor postou no seu perfil do Twitter que vencer o Corinthians vale mais que um título e que entrar com grande parte de jogadores reservas na partida foi algo errado a se fazer.

48 horas depois o São Paulo encarou um briguento e cascudo Racing num jogo extremamente truncado e durante a partida perdeu por contusão dois dos seus principais jogadores nos últimos meses, num empate conquistado em um jogo repleto de adversidades.

Em um esporte que está cada vez mais físico e científico e que apenas a qualidade técnica não é o suficiente para se obter os resultados desejados há anos e até dentro de temporadas regulares (sem pandemia e sem calendários insanos) vimos diversos times “virarem o fio” no meio da temporada por desgaste físico e mental – vide histórias contadas no livro GUARDIOLA CONFIDENCIAL – A EVOLUÇÃO.

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Em outro Livro fantástico – o livro O NEGRO NO FUTEBOL BRASILEIRO – Mario Filho retrata muito bem a chegada de pretos no futebol, que na época era um esporte da elite.

Os pretos e pobres muitas vezes se tornavam sócios dos clubes ou trabalhadores de comércios ou fábricas dos donos dos times “de faixada” e passavam a maior parte do tempo treinando, para no final de semana ter a melhor performance possível e levar o time bancado pela elite ao sucesso nos campos e nas colunas sociais.

Se por um lado esta forma de mascarar o pagamento aos jogadores mais pobres foi um dos pilares do profissionalismo no futebol, por outro ela criou a cultura de se cobrar uma melhor performance destes jogadores, pois eles eram liberados do trabalho mais cedo para treinar, não estudavam e praticamente viviam para aquilo.

Viviam para jogar futebol. Frase familiar, não?

Seguindo o contexto elitista e racista (quase sinônimos, não?) do início do século passado em 1921 o presidente do Brasil Epitáfio Pessoa se reuniu com dirigentes da CBD e recomendou que apenas jogadores brancos fossem convocados para a seleção brasileira, para que assim evitasse “manchar a história do país no exterior”.

Para que você tenha uma ideia, segue abaixo um trecho de uma crônica do escritor preto Lima Barreto logo após a decisão:

“O football é eminentemente um fator de dissensão. Agora mesmo, ele acaba de dar provas disso com a organização de turmas de jogadores que vão à Argentina atirar bolas com os pés, de cá para lá, em disputa internacional.

E o mesmo fez O Correio da Manhã

“O Sacro Colégio de Football (a CBD) reuniu-se em sessão secreta, para decidir se podiam ser levados a Buenos Aires, campeões que tivessem, nas veias, algum bocado de sangue negro — homens de cor, enfim. (…) O conchavo não chegou a um acordo e consultou o papa, no caso, o eminente senhor presidente da República.’ Foi sua resolução de que gente tão ordinária e comprometedora não devia figurar nas exportáveis turmas de jogadores; lá fora, acrescentou, não se precisava saber que tínhamos no Brasil semelhante esterco humano.”

Jogos da Seleção Brasileira em 1921 - Jogos da Seleção Brasileira de Futebol
A “aura” Seleção Brasileira de 1921

Quase 30 anos depois, a Seleção Brasileira estava disputando a fase final da Copa do Mundo no Brasil e dias antes da final teve que sair de sua concentração e atender interesses de políticos, servindo de “manequins do sucesso” em jantares, reuniões e pequenos eventos.

Depois da final, sabemos bem o que aconteceu. Jogadores negros chegaram a ser escorraçados em seus retornos para a casa após a derrota para o Uruguai e a principal vítima do descaso, o goleiro Barbosa, viveu sob a sombra de uma pena máxima dada pela opinião pública, que como hoje, é bem influenciada pela imprensa.

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Anos depois, na era de ouro do nosso futebol, há vários registros de excursões dos grandes times brasileiros – principalmente Santos e Botafogo – em que jogadores sequer descansavam e muitos entravam em campo à base de muita infiltração e remédios para suportar a sequência de partidas para agradar o público e os bolsos dos dirigentes, pois sem as estrelas em campo o valor pago para os times era bem menor.

Garrincha foi prova viva deste descaso. Usado praticamente como um personagem de circo, nunca tratou da maneira ideal suas contusões e ao encerrar a carreira foi praticamente abandonado, recebendo uma pensão ridícula do clube que até hoje usa a sua imagem para ser reconhecido mundialmente.

A última vez que vi Mané Garrincha – Revista Ideias
Os exaustos joelhos de Mané

Nos anos seguintes, nomes como Afonsinho, Reinaldo, Sócrates, Casagrande e Wladimir – nomes que claramente lutaram contra a ditadura militar no Brasil – foram taxados de vagabundos, irresponsáveis e que deveriam “apenas jogar futebol” e se calarem. E como sabemos, eles nunca se calaram.

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Chegam os anos 90 e aí, como a nossa história é cíclica, o pagamento aos atletas volta a ser o problema. Com os jogadores ganhando altos salários a cobrança sobre a sua performance é redobrada.

Por quantas vezes não falamos ou ouvimos a frase “COM O QUE GANHA TEM QUE JOGAR TODOS OS DIAS E NEM RECLAMAR” nos últimos trinta anos ao falarmos sobre o calendário do futebol brasileiro?

Capa da Revista PLACAR em 1996

A cobrança e exigência aumenta também com a chegada das Arenas. O novo perfil de torcedor, que muitos insistem a chamar de consumidor, exige um espetáculo de acordo com o valor exorbitante que ele pagou.

Apoiar, vibrar e sofrer junto com o seu time não basta. Gritar para incentivar então nem pensar, pois ele quer assistir o jogo sentado.

Ele quer entretenimento, como se estivesse no Cinemark esperando o novo filme dos Vingadores começar. E caso ele não goste, vai reclamar e muito.

Fotos: Corinthians inaugura camarote com piscina em clássico contra o São  Paulo - 17/02/2019 - UOL Esporte
Camarote FIELZONE

O futebol brasileiro e todo o seu sistema precisa acordar para isso.
Ligar a TV e ver o seu time jogar todos os dias não é algo saudável. Assinar um acordo de fazer isso acontecer para atender interesses financeiros imediatos pode ter causado um estrago à médio prazo imprescindível.

Os jogadores também precisam se manifestar. São os artistas dessa turnê exaustiva e caso ela comece a não ser mais rentável serão os primeiros a pagarem por isso. Se não há revolta da “da mão de obra” ela não suporta e acaba dando espaço para outra mais qualificada ou que apenas aceite suportar o trabalho abusivo.

Isso não sou eu que estou dizendo e sim a história.

Quem cobre o futebol precisa trazer o lado mais humano da coisa.
Ninguém consegue render o melhor com tudo que estamos vivendo no mundo e isso tem que ser levado às Mesas Redondas, Podcasts e debates da TV – e sejamos justos, nomes como Vitor Birner, Paulo Calcade e André Kfouri vêm batendo nessa tecla há algum tempo.

Já o torcedor precisa se mais amor do que obsessão.

O tipo de cobrança feita recentemente por dirigentes, jornalistas e torcedores não é de quem ama o futebol e sim de quem quer jogar todo ódio todo do seu dia a dia em algo que tem pouquíssima culpa naquilo e isso se chama RELACIONAMENTO ABUSIVO.

Quem ama cuida.
Mas como vocês leram no texto, nunca o futebol brasileiro esteve nas mãos de quem realmente o ama.

E como em todo relacionamento, isso uma hora isso cansa.

Anos Incríveis: A História da NASL – Pt. 2

Antes de você iniciar a leitura, gostaria de dar um aviso:

A série especial é sobre a Liga. Claro que daremos um destaque especial ao Cosmos, mas por justiça a história da competição, a NASL não foi apenas o Cosmos, principalmente quando atingiu o seu auge e a nossa ideia aqui é contar grandes momentos de um todo e não apenas de um time.

Dito isso, boa leitura.

A CALMARIA ANTES DO TROVÃO

A ideia de iniciar em 1973 o capítulo em que falamos sobre o auge da liga não foi por acaso.

1973 é o ano em que a Liga inicia uma nova fase, com os jogos tendo uma notável melhora técnica, com alguns jogadores norte-americanos se destacando e com o surgimento das primeiras rivalidades.

Phil Woosnam, Comissário da Liga, continua na busca por novos times pelo país e a liga mais uma vez aumenta o número de clubes, vai de oito da temporada anterior, para 9 – com a chegada do Philadelphia Atoms.

De acordo com as pesquisas, o Atoms surge após o dono do Dallas Tornado Lamar Hunt sugerir a ideia de criar uma franquia em Philadelphia ao mega empresário da Construção Civíl Tom McCloskey durante um bate papo no Super Bowl do futebol americano daquele ano.

McCloskey gosta da ideia, mas sem conhecimento algum do esporte ele entrega o trabalho de formação do time ao treinador Al Miller, que montou um time com diversos jogadores do Southport, da terceira divisão inglesa e bons nomes draftados do futebol universitário.

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O Novo time da NASL ficou na conferência Leste, ao lado de NY Cosmos e do Miami, que se chamava Miami Gatos, mas mudou o nome para Miami Toros.

O restante dos times formavam as outras duas conferências – Oeste e Sul – e pelo regulamento os primeiros colocados de cada grupo e o melhor segundo colocado fariam as semifinais.

Para manter a tradição de sempre que possível adicionar uma bizarrice à Liga, o Tiburones de Vera Cruz do México fez uma excursão e enfrentou todos os times da NASL e sabe-se lá por que, os placares e pontuações dos jogos foram computados para os times da liga.

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Como na temporada anterior, alguns times aos poucos pareciam formar uma elite da Liga, e novamente NY Cosmos e Dallas Tornado passaram para a semifinal, assim como o Toronto Metros.

Porém o destaque mesmo foi o Philadelphia Atoms que no seu primeiro ano foi o melhor time da conferência.

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Os confrontos da semifnal colocaram o Dallas Tornado para encarar o NY Cosmos de um lado e Phladelphia Atoms como adversário do Toronto Metros no outro.

Na semi envolvendo o estreante da Liga o Philadelphia Atoms, que ficou por 13 jogos invicto na primeira fase e teve a melhor defesa da competição, atropelou o Toronto Metros para conquistar o eu lugar na final.

Na outra semifinal, a que envolveu os times ENTRE ASPAS “mais tradicionais”, o Dallas Tornado – time com a melhor campanha da competição – venceu o NY Cosmos por 1 x 0 com gol de Kyle Rote – e graças a melhor campanha ganhou, como estava escrito no regulamento, além do direito de decidir a liga em casa, o direito também de escolher qual a data em que a final aconteceria.

E aqui vem a uma bela Pitadinha…

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O diretor do Dallas, Joe Echelle, escolheu o dia 25 de agosto – o exato dia em que os principais jogadores do time de Philadelphia, Andy Prvan e Jim Fryatt deveriam estar na Inglaterra para se apresentarem ao Southport, pois a data ultrapassava o período do empréstimo dos jogadores.

Ao perder dois dos principais nomes do time, o treinador Al Miller fez diversas alterações, entre elas colocou o zagueiro Billy Straub para jogar como atacante.

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As mudanças deram certo. O Philadelphia mandou no jogo e quando o Dallas tentava oferecer algum perigo a linha de defesa do Atoms – chamada de NO GOAL PATROL – manteve a meta do goleiro Bob Rigby segura.

No segundo tempo o domínio do jogo se transformou em gols.

  • O primeiro foi um gol contra bizarro marcado pelo zagueiro do Dallas, John Best.
  • O segundo, quis o destino – foi do zagueiro improvisado de atacante Billy Straub. 

Final da NASL entre Philadelphia Atoms e Dallas Tornado

Enquanto a Liga de 1973 acontecia, Phil Woosnam – o Homem Da Liga – continuava sua jornada de conseguir novos times para fortalecer a competição e deixá-la cada vez mais com a cara de uma Liga Nacional, cobrindo todo o território do Norte-americano.

Woosnam fez a liga chegar de vez à Costa Oeste, adicionando equipes nas cidades de Vancouver, Seattle, Los Angeles e San José.

Além destas cidades no fim do ano ele cravou mais quatro franquias pelo país:

Denver, Boston, Washington e Baltimore. O acréscimo de oito equipes praticamente fez a crítica nem questionar a falência do Atlanta Apolos – o ex-Atlanta Chiefs, campeão da primeira North American Soccer League – e o Montreal Olympics,

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Para não perderem o costume e manterem a tradição de sempre alterarem ou trazerem alguma novidade para a competição, os organizadores decidiram que não haveria mais jogos empatados e que em caso de igualdade nos noventa minutos a partida seria decidida nos pênaltis.
Algo parecido com o que foi feito aqui no Brasil na Copa União de 1988.

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Esta temporada também foi a primeira em que clubes de outros países tiveram influência zero na pontuação ou no calendário do Liga, o que mais uma vez deixava claro que os organizadores estavam buscando uma identidade Norte-Americana para o esporte.

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Os times foram divididos em quatro conferências e os dois times com melhor pontuação seguiriam direto para as semifinais.
Já os times entre a terceira e a sexta melhores campanhas fariam uma repescagem para conquistarem as vagas restantes.

O Miami Toros de Warren “Laga” Archibald e o estreante Los Angeles Aztecs do uruguaio Luis Marotte e do argentino Roberto Aguirre fizeram as melhores campanhas e seguiram direto para a semifinal.

Nas repescagens três equipes eram estreantes:

  • O Boston Minuteman superou o Baltimore Cornets
  • E o San Jose Earthquakes não foi capaz de encarar de frente o único “vetarano” da fase final e foi derrotado pelo Dallas Tornado da lenda da Liga Ilija Mitic.

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Nas semifinais a força dos melhores times da primeira fase prevaleceu.

O Los Angeles Aztecs superou o Boston Minutemen, o Miami Toros superou o Dallas Tornado e no fim de agosto de 1974 disputaram a final, que deveria ser em Los Angeles, mas acabou acontecendo em Miami – e aqui temos que fazer uma pausa e explicar o porquê:

A CBS tinha os direitos de transmissão da final e por lei do Estado da Califórnia o jogo só poderia ser transmitido caso todos os ingressos fossem vendidos – algo parecido com o que vimos aqui no Brasil, especialmente no Estado de São Paulo nos anos 90.

Como o estádio de Los Angeles tem a capacidade de 90 mil pessoas e provavelmente não teria uma venda total de ingressos, a CBS convenceu a Liga e os clubes envolvidos que a melhor opção era levar a final para Miami.

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O jogo foi muito disputado e com um empate em 3 x 3 nos 90 minutos, e na decisão por pênaltis, o Los Angeles Aztecs foi melhor, ficou com a taça e se tornou a segunda equipe a vencer a liga logo em seu primeiro ano de disputa.

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Porém, se dentro de campo todos os olhares estavam para Miami e Los Angeles, fora dele os olhares da Liga se voltavam para o Brasil, pois o Cosmos – ou melhor, os investidores do Cosmos, mesmo com o time sendo a penúltima colocada da liga – estavam com planos de mudarem o patamar da equipe.

Quer dizer, da equipe não, da Liga.

THE KING IS HERE.

Pelé se despede do Santos no dia 02 de outubro de 1974, na vitória do Alvinegro da Vila Belmiro por 2 x 0 sobre a Ponte Preta, mas os dirigentes do New York Cosmos sonhavam com a presença do Rei do Futebol no time desde quando a franquia foi criada.

Porém apenas em 1972, quando o Santos fazia mais uma das tantas excursões pelo mundo em que passou pelo território americano que as conversas começaram a esquentar.

A desistência do Rei de disputar a Copa do Mundo de 1974, ao invés de desanimar os dirigentes do time nova iorquino, os deixaram mais empolgados, pois o plano de ter Pelé no time extrapolava as quatro linhas.

Pelé era visto como uma estrela mundial muito além das quatro linhas para o Grupo Warner, dono do Cosmos, e ter o jogador por mais tempo para se dedicar ao clube era o ideal para que a sua marca fosse explorada.

Os meses seguintes a sua despedida foram de muitas conversas, viagens e tentativas de formalizar o contrato.

E aqui vale reforçar que os americanos tinham a concorrência de Real Madrid e Juventus, que também sonhavam com a presença do Rei do Futebol em seus elencos.

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Os dirigentes do Cosmos queriam três anos de contrato e estavam dispostos a pagarem 3 Milhões de dólares.

Pelé queria apenas dois anos de contrato e não desistia de receber 5 milhões de dólares.

De acordo com ex-dirigentes da franquia, a ordem de Steve Ross, Presidente do Grupo Warner era de voltarem do Brasil com o contrato assinado com o Pelé custe o que custar – e foi isso que aconteceu.

Em uma negociação em que os valores nunca ficaram claros, ficou acordado que Pelé jogaria pela equipe de Nova Iorque por dois anos, mas todos os contratos de marketing, licenciamento e direitos de imagem ficaram vinculados ao Grupo Warner por mais de dez anos.

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Se o acordo entre a Equipe e o Atleta estava acertado. O acordo entre países nem tanto.

O Governo Ditatorial de Ernesto Geisel não via com bons olhos a ida de Pelé para os Estados Unidos e estava emperrando a viagem do Rei.

Dirigentes do Cosmos foram obrigados a solicitar uma ajuda do governo Norte-americano, mais especificamente do controverso Secretário Geral da Época – Henry Kissinger – que por mais que tenha um Prêmio Nobel da Paz em sua prateleira é conhecido por ser um dos idealizadores das Ditaduras Militares na América Latina e que com isso tinha total voz de poder sobre o Chanceler Brasileiro da época – Antônio Azeredo da Silveira.

Henry enviou um telefonou ao Chanceler e em poucas palavras disse que ABRE ASPAS:

“Seria bom para a relação entre os dois países, que Pelé fosse jogar nos Estados Unidos e que ajudaria também na imagem do Brasil no exterior.”

Antônio Azeredo entendeu o recado e no mesmo dia emitiu um Telegrama para Pelé com os seguintes dizeres:

“Tenho o prazer de comunicar-lhe que recebi mensagem do secretário de estado norte-americano, Henry Kissinger manifestando seu interesse pessoal em que possam chegar a bom termo as tentativas entre o Cosmos Clube e V.Sa. para a sua contratação pela equipe de Nova Iorque. Caso V.Sa. decida firmar aquele contrato, estou seguro de que sua permanência nos Estados Unidos contribuirá de forma muito significativa para uma aproximação brasileiro-norte-americana no campo esportivo. Cordiais saudações. 

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E foi assim, envolvendo o maior Grupo de Comunicação do Mundo, o Governo Americano, a Ditadura Militar Brasileira e muitos milhões de dólares a negociação aconteceu.

O Rei Do Futebol chegava ao Soccer. E como num milagre, todos os olhares do mundo do futebol se voltavam para os Estados Unidos.

CIA Declassified File: When Kissinger Met Pele And Called Him To The White  House
O Rei Pelé e Henry Kissinger

Pelé encontra uma Liga que não parava de crescer.

Phil Woosnam seguia na busca por novas franquias e conseguiu adicionar mais cinco para a nova temporada:

  • O Chicago Sting,
  • O Hartfold Bicentennials,
  • O Portland Timbers – este mesmo, presente na MLS
  • O Santo Antonio Thunder
  • E por último, mas longe de ser o menos importante – o Tampa Bay Rowdies

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Além disso, antes do Rei, o “Pantera Negra” Eusébio foi contratado pelo Boston Minutemen e mesmo debilitado pelas contusões no joelho, foi essencial para levar o time aos Playoffs.

O que não acontece com o Cosmos de Pelé, que ao estrear no terrível gramado – se é que podemos chamar aquilo de gramado – do Dallas Tornado, no empate em 2 x 2 em que ele faz o segundo gol para equipe de Nova York, o Rei descobre que mesmo nem o melhor de todos os tempos daria jeito num time tão ruim quanto aquele.

Mesmo assim, com a presença de Pelé a Liga muda de Status.
A média de público de duas mil pessoas começa a atingir 20 ou trinta mil nos jogos do Cosmos.

Até mesmo os jogos em que Pelé não participa, mas aparece antes do jogo para saudar as torcidas.

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Voltando para a temporada de 1975 – os Playoffs, assim como nos anos anteriores, reuniram muitas das franquias estreantes – com destaque para o Portland Timbers do inglês Peter White, que jogou no Nothingham Forest de Brian Clough e para o Tampa Bay Rowdies do Iraniano Farrukh Quraishi e do inglês Stewart Jump.

  • Nas quartas o Portland Timbers superou o vizinho Seattle Sounders – no que podemos dizer, foi o primeiro grande jogo da rivalidade entre os dois times.
  • O St. Louis Stars do goleiro inglês Peter Bonetti venceu o Los Angeles Aztecs nos pênaltis.
  • O Miami Toros de Steve David – MVP da temporada regular – superou o Boston Minutemen de Eusébio
  • E o Tampa Bay Rowdies superou o Toronto Metros – que neste mesmo ano se uniu com o Toronto Croatia, time de imigrantes da Liga Canadense e mudou de nome para Toronto Metros-Croatia.

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Nas semifinais, os dois melhores times da primeira fase – Portland e Tampa Bay – confirmam o favoritismo, vencem e chegam à final da Liga.

Quer dizer… Final não. SOCCER BOWL!!!

Nome dado para a final do Torneio e que obviamente teve inspiração no SUPER BOWL do Fuebol Americano e seguia a ideia de escolher uma cidade para sediar a final antes mesmo de sabermos quem seriam os finalistas.

Soccer Bowl 75 | Portland Timbers vs. Tampa Bay Rowdies. Aug… | Flickr
Capa da Revista KICK

E na final disputada num Spartan Stadium em San José na California os Rowdies foram bem melhores e com gols de Arsene Auguste, Haitiano que jogou a Copa de 1974 e de Clyde Best, jogador nascido em Bermuda e um dos primeiros jogadores negros a jogar no futebol da Inglaterra, pelo West Ham – venceu por dois a zero e ficou com a taça.

Soccer Bowl 75′

Enquanto os playoffs aconteciam, o New York Cosmos decidiufazer uma excursão pela Europa e América Central.

A cada jogo com seus novos companheiros, bem diferentes dos que estava costumado, Pelé foi deixando cada vez mais claro para os diretores da franquia presentes na viagem que aquele time não seria o suficiente para vencer a Liga e muito menos para ser uma atração para o público por um longo tempo.

Clive Toye – o nome indicado por Steve Ross para dirigir o Cosmos – sabia bem o que fazer.

Repassar a mensagem do Rei do Futebol para Steve Ross e receber o OK para seguir em frente, reforçar o time e claro, com Pelé no elenco ficava muito mais fácil convencer outros jogadores a se juntarem ao time.

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A presença de Pelé na Liga também fez com que as portas se abrissem para grandes jogadores do futebol mundial também nas outras equipes.

Vendo os números de público aumentarem em jogos do Cosmos, tanto em Nova Iorque ou fora de casa, muitos donos de franquia foram atrás do seu SUPERSTAR para atrair novos espectadores e a Inglaterra, país que sempre forneceu nomes de clubes ou divisões inferiores, desta vez começava a fornercer à North American Soccer League grandes nomes que, na maioria dos casos estava buscando um momento de paz

  • O Seattle Sounders conseguiu contratar Geoff Hurst, autor de três gols na final da Copa do Mundo de 1966.
  • O San Antonio Thunder tira Bobby Moore do Fulham
  • O Tampa Bay Rowdies, campeão o ano anterior contratou Rodney Marsh um dos tantos meias talentosos, mas não muito disciplinados – conhecidos como MAVERICKS – com passagens pelo Manchester City e Queen Park Rangers.
  • E o Los Angeles Aztecs – que naquele ano foi adquirido por ninguém mais ninguém menos que o cantor Elton John – fechou negócio com a lenda do Manchester United Geroge Best, que no ano anterior chegou a negociar com o NY Cosmos, mas desistiu de última hora.

E com todos estes nomes a temporada começou cheia de expectativas.

O aumento da competitividade, o surgimento de rivalidades, os números crescentes de público e audiência e grandes nomes do futebol desfilando pelos gramados deixavam todos empolgados.

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Na temporada regular – ou na primeira fase – o destaque fica por conta do Campeão da temporada anterior – o Tampa Bay – que fica na frente do NY Cosmos na Conferência Leste.

Aliás um dos maiores jogos da história a NASL acontece entre os dois times na primeira fase:

Com uma atuação histórica de Rodney Marsh, o Rowdies atropelou o Cosmos de Pelé e agora também do ótimo atacante italiano Giorgio Chinaglia – vindo da Lazio – por 5 x 1.

Nem a vitória por 5 x 4 no jogo do segundo turno disputado em NY fecharam as cicatrizes deixadas no primeiro jogo, em que Marsh provocou o time de Pelé e Cia e por muito pouco os times não quebraram o pau.

Tampa Bay Rowdies 5 x 1 Ny Cosmos

O regulamento da temporada de 1976 previa que os melhores times de cada divisão seguiriam diretamente para as quartas de final e o segundo e terceiro colocados fariam uma repescagem para ocuparem as outras vagas das quartas.

  • O Tampa Bay de Rodney Marsh
  • O Chicago Sting de John Kowalik – artilheiro da primeira temporada da Liga em 1968
  • O San Jose Earthquakes do português Simão
  • E o Minessota Kicks passaram direto para as oitavas.

Cosmos, Toronto Metros, Dallas Tornado e Seattle Sounders passaram na repescagem e continuaram na competição.

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O jogo mais esperado era a final da Conferência Leste.

Um novo encontro entre o NY Cosmos de Pelé e Chinaglia contra o Tampa Bay de Rodney Marsh e Derek Smethurst disputado no Tampa Stadium numa bela noite de sexta-feira.

Os dois primeiros foram cheios de provocações, entradas ríspidas e reclamações dos dois lados.

  • Por parte do Cosmos a principal reclamação era com o comportamento de Rodney Marsh nos dois jogos, provocando todos os jogadores do Cosmos.
  • Já pelo lado do Rowdies a reclamação era bem parecida com a de todos os adversários do Cosmos, que diziam que o time de Nova Iorque parecia ser protegido pelos árbitros, que se faziam de coitados e os questionavam em todas as suas decisões.

Ou seja, nada muito diferente do que vimos e ouvimos hoje em dia.

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Quando a bola rola, Pelé abre o placar para o Cosmos, que mesmo tendo bons nomes no ataque, sofre demais na defesa para marcar um time muito mais equilibrado e com o ótimo trio formado por Clyde Best, Derek Smethurst e claro – Rodney Marsh.

O que vemos a seguir do gol de Pelé é uma reação avassaladora do time da casa que faz três gols e impõe uma vitória inquestionável sobre o rival.

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O resultado incomoda os donos do time e os grandes nomes do vestiário.

Pelé cobra Chinaglia por individualismo e o italiano rebate dizendo que o camisa dez não parecia estar se dedicando o suficiente e mais preocupado com a vida fora de campo.

Os dirigentes tentam colocar panos quentes nas discussões e fazer com que as estrelas superem se entendam.

A crítica, principalmente de fora dos Estados Unidos, questiona todo o investimento e a badalação em volta do time que em campo não entrega o esperado.

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Voltando agora para as decisões das outras divisões:

  • O Toronto Metros Croatia de Eusebio e de Ivair “O PRÍNCIPE” superou o Chicago Sting na final da Divisão Norte
  • O San Jose superou o Dallas Tornado na Divisão Sul
  • E o Minessota Kicks comprovou sua superioridade na Divisão Oeste e eliminou o Seattle Sounders

Durante as pesquisas, ao buscar informações sobre os jogos da fase final, era claro uma superioridade no nível dos times das divisões Norte e Leste em relação aos times das Divisões Sul e Oeste que fariam a outra semifinal.

Na final do Pacífico, a de nível mais baixo o Minesota Kicks venceu por 3 x 1 o San José.

Na final do Atlântico, o Tampa Bay Rowdies e Toronto Metros fizeram um jogaço e com direito a gol com uma troca de passes entre Ivair e Eusébio o time canadense venceu o Campeão do ano anterior e chegou à final, com direito a gol com tabela entre o Pantera Negra Eusébio e O Príncipe Ivair.

Tampa Bay Rowdies 1 x 2 Toronto Metros-Croatia

O Soccer Bowl de 1976 foi disputado no Kingdome em Seattle. Estádio inaugurado naquele ano para receber jogos de todas as equipes e esportes da cidade de Seattle.

Assim como na semifinal, o time canadense com raízes croatas dominou a partida.

O Toronto Metros-Croatia – que no canal CBS era apenas chamado de Toronto Metros, pois havia uma regra informal de deixar a liga com uma identidade mais local – saiu na frente com um golaço de falta de Eusébio.

No segundo tempo foi a vez dos outros dois nomes do trio ofensivo do time chegarem as redes e confirmarem a superioridade no placar.

  • Ivan Lukačevic aos oito do segundo tempo.
  • E brasileiro Ivair aos 37 minutos fez o gol que resolveu a partida e deu o primeiro título da NASL para uma equipe canadense.

AS ESTRELAS DECIDIRAM BRILHAR

1977 era o último ano de contrato de Pelé com o Cosmos e por mais que fora de campo tudo estivesse muito bem, com um faturamento considerável em publicidade, com os direitos de imagem sobre o Rei e claro, com os grandes públicos, faltava o mais importante – um título.

Mesmo sendo a sensação da Liga, gerando interesse de pessoas do mundo todo e utilizado como uma ótima ferramenta de relacionamento e de negócios pela Warner, que levava todos os famosos do Show Business para presenciar um jogo do time, dentro do mundo do futebol e no dia a dia da equipe, não ser campeão tendo o melhor jogador de todos os tempos incomodava e muito.

Pelé por outro lado, não parecia estar muito preocupado com isso, pois praticamente abandonou o clube semanas antes do início da Liga e apareceu apenas cinco dias antes da primeira rodada. O que deixou nomes como o goleiro Shep Messing, o capitão Werner Roth e principalmente Giorgio Chinaglia bem incomodados.

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Deixando agora o Cosmos um pouquinho de lado para falar dos outros times, podemos dizer que o ano de 1977 pode ser considerado O ANO da North American Soccer League.

Mesmo com a falência de duas franquias – o Boston Minutemen e o Philadelphia Atoms – os times continuavam contratando bons nomes pelo mundo afora.

Fossem eles grandes estrelas em fim de carreira como o goleiro inglês Gordon Banks ou bons jovens de divisões menores de países com maior tradição no futebol.

Até as franquias que se mudaram

  • Como do Miami Toros que se tornou o Fort Lauderdale Stikers
  • O San Diego Jaws que se tornou o Las Vegas Quicksilvers
  • E o San Antonio Thunder que se tornou o time mais inesperado da liga – o Team Hawaii

Foram para lugares mais atraentes e algumas delas adquiridas por donos mais ricos, aumentado a receita e a competitividade da liga.

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A Temprada Regular foi de altíssimo nível e muito equilíbrio.

Pela Conferência do Atlântico:

  • O Fort Lauderdale de Gordon Banks tirou proveito do momento bagunçado do Cosmos e foi o melhor time da Divisão Norte, seguindo direto para as quartas e deixando os rivais de Nova Iorque e Tampa – o Tampa Bay Rowdies – se enfrentarem na repescagem.
  • Já na Divisão Norte o Toronto manteve o alto nível da temporada anterior e seguiu para as quartas, deixando St Louis e Rochester Lancers para a repescagem

Já do outro lado, na Conferência do Pacífico:

  • O Dallas Tornado foi o time com mais pontos na Divisão Sul, mas a sensação foi o Los Angeles Aztecs do genial George Best com o estilo de jogo mais atraente da Liga.
  • E por último, mas não menos importante. O Minessota Kicks do meia inglês Alan West foi o melhor time da Divisão Oeste deixando a bucha da repescagem para o Seattle Sounders e o Vancouver Whitecaps.

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Voltando nossos olhares novamente para equipe de Nova Iorque, como falamos anteriormente, o Cosmos viva um momento conturbado.

Pelé e Chinaglia viviam uma relação de amor, ódio e muita genialidade, praticamente carregando nas costas um time fraco tecnicamente.

Chinaglia tinha uma relação muito próxima com os diretores do clube e com Steve Ross, que simplesmente idolatrava o atacante italiano e adorava o fato dele ser um jogador muito mais aberto a um contato direto, pois Pelé era muito mais reservado e fora de campo tinha uma vida bem diferente do restante do elenco.

Antes dos Playoffs os dois tiveram influencia total na mudança de rota do time ao ajudar o time a tomar decisões fora de campo que tiveram impacto direto no restante da temporada dentro de campo

  • Pelé continuava reclamando do nível dos companheiros, principalmente dos jogadores do sistema defensivo e Clive Toye, principal diretor do time decidiu resolver de uma vez o problema contratando para o time Carlos Alberto Torres, Rildo e Franz Beckenbauer.
  • Já Chinaglia, jogador que sempre se doava 100% em campo, mas que começava a dar sinais de cansaço no fim da primeira fase, em uma das partidas foi colocado no banco por Gordon Bradley e não gostou nada daquilo.
    • Chinaglia reclamou com seu maior fã e dono do time, Steve Ross, que não pensou duas vezes, mandou Bradley embora e contratou o ex-treinador do Tampa Bay Rowdies – Eddie Firmani – amigo de longa data do atacante italiano e que havia pedido demissão de forma inesperada do time rival.
Por que o Cosmos -- que já teve Pelé e Beckenbauer -- não conseguiu entrar  na MLS - YouTube
O “Novo NY Cosmos” de Carlos Alberto, Beckembauer, Chinaglia e Pelé

Por mais que não tenha sido a melhor forma de se trocar de treinador, a estratégia deu certo.

Na repescagem contra o principal rival da Conferência, o time não começa bem e faz um primeiro tempo bem abaixo, lembrando bastante o time desorganizado do começo da temporada.

Pelé e Chinaglia descem para o vestiário discutindo, e a bronca dada por Eddie Firmani durante o intervalo serviu como uma motivação para os dois grandes nomes do time.

  • Pelé faz o primeiro.
  • Chinaglia estufa as redes para marcar o segundo depois de um cruzamento de Steve Hunt
  • E de novo o Rei, faz o terceiro para levar o time nova-iorquino para a final da Divisão, onde enfrentariam o Fort Lauderdale Strikes – o melhor time da temporada regular.

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O primeiro jogo, disputado no Giants Stadium, provavelmente foi a maior atuação do NY Cosmos em sua história.

O público de quase 78 mil espectadores – recorde da temporada – viu um desfile dos craques, principalmente de Beckenbauer, que comandou o time numa goleada avassaladora:

Um 8 x 3 diante do melhor time da Temporada Regular e que tinha na sua meta Gordon Banks.

Porém, se no primeiro jogo Banks sofreu, no segundo teve uma atuação de gala e foi o responsável por segurar o empate por 2 x 2 no tempo normal e no tempo extra.

E aqui surge mais uma bizarrice, ou mais uma novidade na NASL:

Não havia saldo de gols nas decisões de Divisões e o regulamento daquele ano previa que nenhum jogo terminaria empatado, pois os times jogariam um tempo extra com o Gol de Ouro e caso o gol não saísse eles fariam uma disputa de Shoot-Outs ao invés das tradicionais cobranças de penalidades para definir o vencedor.

No Shoot-Out o jogador corre em direção ao gol de uma distância de um pouco menos de 30 metros e tem cinco segundos para definir a jogada.

Algo muito parecido com o que a MLS implantou no início da sua história e, caso você jogue Futebol Society ou Fut7 sabe que os jogos também são decididos assim em caso de empate.

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Depois da explicação e voltando para o jogo e para a loucura do regulamento, por ter a melhor campanha, mesmo tendo perdido uma partida por 8 x 3 e empatado a outra no tempo normal, caso o Fort Lauderdale Strikers vencesse a disputa de Shoot-Outs ele se classificaria para a final.

Porém, o goleiro que brilha nas cobranças é Shep Messing que defende quatro tentativas do Strikers e classifica o time para encarar o Rochester Lancers na decisão da Conferência do Atlântico.

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Do outro lado, na Conferência do Pacífico a final envolveu O Los Angeles Aztecs de Geroge Best e o Seattle Sounders de Jim McAllister – o Rookie of the Year – ou melhor, o jovem destaque da temporada.

No primeiro jogo em Los Angeles o Sounders fez uma partida impecável e venceu por 3 x 0, praticamente encaminhando a classificação, que veio depois de uma vitória segura em casa por 1 x 0.

O time da Cidade da Esmeralda, como é conhecida Seattle, agora esperava o adversário do outro lado.

Quer dizer, esperava não, pois ele já imaginava o que teria que encarar na final em Portland. Pois o Cosmos da segunda fase era um time totalmente diferente da temporada regular.

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As picuinhas entre os jogadores foram superadas, o novo treinador Eddie Firmani, tinha um comportamento muito mais amigável e isso deixava todas as estrelas satisfeitas, seja lá qual fosse a sua nacionalidade.

Além disso, ele fez uma mudança crucial ao adiantar um pouco mais Franz Beckenbauer, dando a ele mais liberdade para chegar ao ataque e ser o principal criador de jogadas do time, abastecendo Steve Hunt, Pelé e Chinaglia.

A mudança de postura do Rei também ajudou demais. Pelé sabia que não seria legal para sua imagem passar pelos Estados Unidos, jogar no time mais rico da Liga e não ganhar sequer um título.

Por isso, deixou de lado por um tempo os compromissos e badalações do extracampo e se dedicou mais aos treinos e assumiu o papel de líder do time.

E como vimos anteriormente, na segunda fase os resultados vieram.

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O último obstáculo antes do Soccer Bowl era o Rochester Lancers do bom atacante iugoslavo naturalizado canadense Mike Stojanovič.

No primeiro jogo, disputado no Holleder Memorial Stadium a vontade e dedicação de Pelé impressionou a todos. Ele parecia onipresente, dando piques para recompor a marcação, e combatendo como se fosse um médio volante.

Já com a bola, jogava mais recuado, organizando o jogo com Beckenbauer e criando chances para Steve Hunt, Tony Field e Giorgio Chinaglia.

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Neste jogo, que terminou com a  vitória por 2 x 1 do Cosmos, ele não chega a marcar, mas sai como melhor em campo disparado.

Já no jogo de volta, num Giants Stadium com mais de 73 mil pessoas o público viu o lado mais Genial de Pelé, que desfilou em campo, fez um gol e comandou o time na goleada por 4 x 1 levando o time ao Soccer Bowl.

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O estádio fez festa com cara de conquista de título, mas o Rei pediu calma, disse que faltava mais um jogo.

Pelé dando entrevista após a classificação do NY Cosmos para o Soccer Bowl 77′

A final foi no dia 28 de agosto de 1977 no Civic Stadium em Portland – estádio que hoje é conhecido como Providence Park.

O Civic Stadium era um dos muitos estádios em que o campo era de grama artificial.

Quer dizer… Talvez nem podemos chamar aquilo de grama, mas sim de um tapete verde, ou ASTRO TURF, nome dado a este tipo de superfície nos Estados Unidos.

Jogar neste tipo de grama artificial era uma das coisas que os jogadores internacionais, principalmente as principais estrelas mais reclamavam, pois além de trocarem as chuteiras por um tênis – muitos deles usavam o lendário ADIDAS SAMBA – a bola pingava demais e deixava o jogo mais rápido e menos técnico, um terror para jogadores mais habilidosos e em final de carreira.

Solado do Tênis ADIDAS SPEZIAL TURF, usado em campos de grama sintéticas da NASL

Quando a bola rola na final o domínio do jogo é do time de Seattle com os ingleses Tommy Ord e Micky Cave dando trabalho ao goleiro Shep Messing.

O Sounders chega a fazer um gol, mas ele é anulado corretamente pois Tommy Ord estava em posição irregular.

Minutos depois o goleiro canadense Tony Chursky do Seattle sai para fazer uma defesa e depois de ficar com a bola nas mãos, decide soltá-la no chão para sair jogando.

O que ele não esperava era que Steve Hunt estivesse atrás dele, e o atacante do Cosmos roubou a bola e faz o primeiro gol da noite para o time de Nova York.

O Sounders praticamente não sente o gol e cinco minutos depois, aos 23 minutos, Tommy Ord marca novamente, mas desta vez está em posição legal, para empatar e colocar novamente o time de Seattle no controle da partida.

O segundo tempo começa e o Soudners ainda controla o jogo, obrigando o goleiro Shep Messing a fazer duas defesas difíceis.
Mas em um contra ataque pelo lado esquerdo aos 27 minutos, Steve Hunt faz um cruzamento perfeito para encontrar o artilheiro Chinaglia que escorou para ampliar e na comemoração, como fazia muitas vezes, correu em direção ao local onde Steve Ross estava no estádio e fez uma dancinha na direção do amigo e dono do time.

Depois disso, o Sounders sentiu demais o gol e o time de Nova Iorque dominou o final da partida.
Pelé teve duas boas chances de fazer o dele, mas a partida seguiu com o placar de 2 x 0 e depois do apito do arbitro Toros Kibritjan o Cosmos de Pelé, o Cosmos das Super Estrelas, o badalado Cosmos pôde finalmente levantar a taça, para a felicidade e alívio dos seus donos e principalmente do Rei do Futebol.

Soccer Bowl 77′

Um mês depois da tão desejada conquista, o dia de dizer adeus, por mais que todos torcessem para que este dia nunca chegasse, já estava agendado.

O Primeiro de Outubro de 1977 ficou marcado como o dia em que o Rei pendurou as chuteiras em um amistoso festivo contra o Santos no Giants Stadium.

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Antes do jogo, Pelé fez um belo discurso dedicado às crianças – o discurso em que ELE DISSE LOVE – e que virou até canção na voz do genial Caetano Veloso.

Com a bola rolando ele jogou um tempo para cada lado e quis o destino que ele marcasse um gol contra o Santos na vitória do Cosmos por 2 x 1 – gol que levou o narrador Walter Abraão a se emocionar

NY Cosmos 2 x 1 Santos – Partida de despedida de Pelé

Pelé encerra sua carreira e ao mesmo tempo a sua passagem pelos Estados Unidos deixando um legado incalculável após estes quase três anos na equipe de Nova Iorque.

Dentro de campo a sua presença fez com que – e aí o que eu vou dizer aqui não tem exagero algum por mais que pareça – um povo que sequer sabia da existência do esporte, sair das suas casas ou ligarem a TV para conhecerem uma nova prática esportiva e conseguiu com que muitos deles se apaixonassem pelo futebol, ou melhor – pelo SOCCER.

Fora dele, foi o primeiro que de forma direta conseguiu reunir famosos de Hollywood, músicos ou qualquer outro tipo de celebridade em volta de um time de futebol e até hoje é um Case de Sucesso de Marketing, Licenciamento e Uso de Imagem.

O Rei cumpriu a sua missão.

Entregou a Liga no seu auge, com recordes de público, recheadas de bons jogadores e com a cultura do futebol se espalhando pelo país.

A responsabilidade de manter a engrenagem funcionando em alta velocidade e na direção certa estava nas mãos dos organizadores da Liga e dos donos das Franquias.

E este será o tema do terceiro e último episódio da série: o que aconteceu com a Liga depois da saída de Pelé e qual caminho ela tomou depois de ter vivido o seu auge.

Para saberem quando o novo episodio estará no ar você já sabe, só nos seguir nas redes sociais:

No Twitter @pitadinhaH e no Instagram @pitadinha_historica

Um abraço a todos e até mais.

A República Populista do Futebol

Sem regular a mídia, governo se torna refém do setor privado - Carta Maior

Em um espaço de 15 dias, pichações surgiram no Centro de Treinamento do Time Campeão da América após o time perder duas finais nos pênaltis e fogos de artifícios explodiram em frente a moradia de um treinador após a derrota para um rival pelo Campeonato Estadual em que ele utilizou os times reservas preservando os titulares para uma partida contra um dos maiores times do continente.

Enquanto isso no YouTube, jornalistas e torcedores – e aqui fica difícil definir quem é quem – há quase um ano estão comparando o trabalho de um treinador com mais de trinta anos de experiência com o de um jovem treinador com quatro anos de carreira e que treina o melhor time do Brasil durante uma pandemia.

Do outro lado desta “sociedade”, quem comanda e decide o futuro do futebol no Brasil segue a assombrosa Cartilha Política do nosso país: Pouca Inteligência, Muita Corrupção, Muita Hipocrisia, Muito Conservadorismo e principalmente Muito Populismo.

E aqui que mora o grande perigo.

Por mais que seja um clichê do cacete, o comportamento do Futebol é simplesmente um reflexo do comportamento da nossa sociedade. Para o bem e para o mal.

E um dos grandes maus da sociedade atual tem sido a obsessão por aceitação. Principalmente nas redes sociais.

Ser aceito nas redes sociais significa ganhar Likes, visualizações, elogios, seguidores e tudo isso infla o ego, faz um bem danado para alma e para o bolso, mas quase que de maneira inconsciente muda o comportamento de todos envolvidos neste círculo vicioso do esporte que tanto amamos.

Aí que tudo se embaralha e se confunde, pois na busca por um reconhecimento POPULISTA:

O YouTuber pensa que é jornalista.

O jornalista pensa que tem que se comportar como YouTuber.

O presidente de Clube pensa que tem que ser mais conhecido do que o jogador.

O jogador pensa que tem que ser influencer (no pior sentido da palavra).

O influencer pensa que pode ser jogador.

Enquanto este círculo vicioso da busca por aceitação vai se espalhando como um Ciclone pelo nosso futebol, levando tudo e todos que encontra pela frente, um personagem principal de toda essa loucura tem sido cada vez mais o principal alvo deste “fenômeno natural” do futebol.

A figura do treinador.

O treinador, que sempre andou numa corda bamba no nosso país, hoje virou um alvo de cobranças constantes por todas as ações de uma estrutura complexa, corrupta e muitas vezes amadora dos departamentos de futebol dos clubes.

O que a maioria faz para se manter aceito no círculo vicioso? Se adapta.
Entra no círculo vicioso da aceitação populista e da mediocridade ao invés de tentar expressar todo o seu conhecimento.

Portanto, se até o personagem que, em teoria, deveria ser o responsável por compartilhar conhecimento e diretamente impactar um núcleo de uma sociedade se vê obrigado a abrir mão de algo tão precioso que é o seu conhecimento para seguir uma cartilha medíocre de conteúdo que agrade os seus líderes populistas e que lhe garanta o emprego, como cobrar que os personagens que fazem parte do sistema, empolgados com os Likes que seus conteúdos também medíocres e populistas geram, mudem o comportamento?

O Brasil forma treinadores, jogadores e jornalistas incríveis.
Se engana quem pensa que nossa escola de treinador é extremamente pobre, ou que nosso jornalismo está de mal a pior por causa da falta de conteúdo inteligente nas grandes mídias.

O problema é que, assim como na sociedade – e principalmente na política – o sistema engole muitos destes ótimos profissionais, que de maneira consciente ou inconsciente se transformam em algo mais aceito pela mediocridade que toma conta do nosso país em todos os sentidos, privilegiando o resultado imediato ao compromisso de informar, educar e compartilhar conhecimento. Pontos comuns do jornalista e do técnico de futebol.

Os últimos anos provaram que o “Jeitinho Brasileiro”, algo que por muitos anos serviu de muleta para corrupção, informalidade e para a falta de uma estrutura de educação decente nesse país é algo mais do que ultrapassado, mas nosso conservadorismo tosco e alienador infelizmente não nos deixa perceber.

No futebol e no jornalismo futebolístico, o “Jeitinho Brasileiro” símbolo da REPÚBLICA POPULISTA DO FUTEBOL, vai nos mantendo numa areia movediça da mediocridade onde discutir futebol, compartilhar conhecimento e tomar decisões drásticas que realmente deem resultado são coisas mal vistas e ações de curto prazo tomadas sem fundamento algum, o sensacionalismo e as discussões vazias que alienam a bolha do futebol, geram Likes e servem para pagar as contas nos mantêm apenas sobrevivendo neste Terceiro Mundo da Bola que infelizmente estamos nos acostumando a viver.

O problema é que, quanto mais movimentos bruscos e sem inteligência um corpo fizer na areia movediça, mais o corpo é puxado para baixo.

QUERO UM FIO DE ESPERANÇA

Vivemos no Brasil um círculo vicioso no futebol em que idolatramos ideias ousadas vindas de fora com a mesma intensidade que crucificamos na raiz as ideias ousadas quando vindas de times e técnicos do nosso país.

Nós brasileiros, em sua grande maioria, somos conservadores por essência.
Podem esbravejar, achar que não, mas o momento que o país passa é o retrato de um conservadorismo extremo, que ao invés de nos manter no lugar, nos puxa para baixo com a força de uma areia movediça. 

Os insistentes por algo novo, mais articulado e lúdico por aqui viram teimosos.
Desde Sempre. 

Telê Santana foi um deles. Ficou taxado de pé frio, pois fez com que o povo mais criativo do mundo chorasse e, no calor da tristeza, clamasse por mais cautela.

Foram precisos dez anos para provar que a solução para o nosso futebol era acabar de vez com a mesmice.
E mesmo rodeado de dúvidas ele precisou dar a volta ao mundo e bater na mente pensante do jogo do Futebol Total que estava sentado no banco e também em seu filho prodígio, que estava em campo tentando acompanhar a Ferrari dirigida pelo Professor Telê.

Dez anos depois do trauma, fez-se o Fio de Esperança.
Ficou muito mais fácil ter esperança no futebol brasileiro depois de Telê abrir o sorriso para o seu camisa Dez que corria para abraça-lo depois de deixar Zubizarreta pregado no chão.

Claro que hoje em dia não temos nenhum nome parecido com o de Telê comandando algum clube por aqui.
Mas o principal problema é que, cortando pela raiz qualquer sinal de algo frutífero – ou aproveitando o embalo, qualquer FIO DE ESPERANÇA – como estamos fazendo, seremos obrigados a viver de times enlatados e embutidos. 

O Fast Food da bola. Que enche a pança mas não alimenta.